sábado, 30 de julho de 2011

ICEBERG

No meio do deserto nasceu o iceberg,
Azulado e imponente,
Ameaçando qualquer lógica.
Nem o calor escaldante da areia,
Nem o tórrido vento seco,
Conseguiram intimidá-lo.
Havia chegado para ficar.
Estabeleceu-se como totem
Para a perturbação dos incrédulos.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

ENFEITE


Quero pisar em ti
Firme.
Apoiar meu salto 
Fino e longo
Até abrir tua pele.
Talvez assim,
E em meio a dor,
Não percebas
O exato instante 
Que te pendurarei
Na minha parede.
Para que, dali,
Sigas enfeitando, 
Silenciosamente,
Os meus devaneios.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

FESTA

Ao som colorido da flauta doce
Esforçou-se em levitar.
Escalou cada acorde como único
Girou de ponta cabeça
Até tontear sua alma
Em meio ao riso das danças absurdas
Fez-se arlequim, colombina e pierrot
Seu vestido de estrelas e nuvens
Dissolveu-se no fogo da lamparina
E assim, nua seguiu na festa
Até o sol vir espiar.

terça-feira, 26 de julho de 2011

DECISÕES

Fechou a porta do pequeno quarto e
Disse ao mundo que havia morrido.
Queria o isolamento total e absoluto
Antes de decidir como deveria proceder.
Passou dias meditando.
Lá fora, pranteavam a sua partida abrupta
Tão moça, tão cheia de vida, se foi...
Seguia no seu intento de desvendar o mistério
Uma noite, em meio a um tufão de pensamentos
Acordou no ímpeto de correr
Entendendo que mistério nenhum existia
Bastava deixar o rio fluir
O vento beijar seu corpo e desgrenhar seus cabelos
A chuva limpar sua alma
O sol queimar sua pele
E os sorrisos serem distribuídos no ar a quem mais lhe agradasse.
Abriu a porta feliz e tentou sair do cômodo.
Só compreendeu a força das decisões precipitadas
Quando foi soterrada pela enorme quantidade de terra entrou pela abertura.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

MISSÃO

Entrou no elevador e apertou o botão.
Subiu até o último andar.
Saiu no terraço e testou o vento,
Estava ideal.
Montou na vassoura
E sentiu o revoar das pombas
Que logo compreenderam
Que o tempo estaria para mudar.
Gargalhou quando transpassou a primeira nuvem negra
Fazendo-a sorrir enquanto se desfazia nas incontáveis lágrimas
Que teimava  armazenar.
Em meio a luz entrecortada dos relâmpagos
E o burburinho dos trovões
Enfiou-se, sem que percebessem,
No lado escuro da lua
Queria descobrir o esconderijo ideal
Para a sua próxima e planejada
Noite de amor.

domingo, 24 de julho de 2011

CONSULTA

Sentou-se compenetrada diante da mesa coberta com a toalha vermelha
Concentrou-se embaralhou as cartas com calma.
Cortou. 
Cortou novamente.
Dispôs em três montes abrindo a primeira carta de cada
A dama de copas surgiu bem colocada entre o valete de espadas e o rei de ouros.
Agora já era tarde
Toda verdade veio à tona claramente
Detestavam a ideia de serem os intrumentos da revelação
Mas nunca se poderiam ter negado
A sua secular tarefa de oráculo.



sábado, 23 de julho de 2011

FILHOS TEXTOS

São três horas da manhã de sábado. A sexta-feira foi pesada. Trabalho, estudo, curso, casa, filhos, marido, todos em eterna solicitação e você correndo para tentar conciliar vontades muitas vezes inconciliáveis. Para relaxar uma janta ótima, com boa companhia, conversas, risadas e algum vinho, pois o frio segue forte. A partir daí casa, cama e sono pesado com intenção de só ir embora com o sol das dez horas do dia seguinte. Olhos estalados a essa hora realmente não faziam parte do contexto.

Tudo começa assim. Desperta-se. Neste caso foi durante a noite, mas prestem atenção esse despertar não necessita ser durante o sono, não, desperta-se a qualquer hora do dia, este entendido como vinte e quatro horas, mil, quatrocentos e quarenta minutos, e dos segundos nem penso em fazer a conta para não assustar. Seguindo então, desperta-se e o movimento começa.

Inicia-se com uma ideia, que logo apresenta uma irmã, uma prima, uma tia, um tio-avô muito querido que não poderia faltar e quando menos se espera estão todos dando uma festa dentro da sua cabeça. As danças completam o frenesi, subindo pelos ares, ocupando o teto e lançando seus participantes empolgados contra as paredes, vulgarmente conhecidas por cérebro, seu cérebro! Noitada boa, todos inebriados querem sair para seguir aproveitando a vida e você ali tentando se concentrar no seu mesquinho cotidiano. Dormir agora? Como assim? Trabalhar, ler, fazer ginástica, atravessar uma rua? Que loucura! Vá corra pegue o papel e o lápis e possibilite que todas saiam para que se possa limpar a sala novamente até a próxima balbúrdia, quem sabe ainda se consegue ver aquele programa de TV nesse meio tempo?

Muito bem, da saída. Nem sempre é organizada, coerente. Eu até diria que, com raras exceções, essa passagem do seu interior volátil para o seu exterior concreto pretendendo a corporificação na palavra escrita lembra uma fuga por uma única e estreita porta de um ambiente lotado onde um engraçadinho qualquer tenha gritado “fogo!”. Tudo quer sair ao mesmo tempo e cabe a você quando elas vão se lançando ao ar e imprimindo suas personalidades no papel, riscar e descartar as mais desavisadas, as mais sem noção e as totalmente dispensáveis para a formação de algo que mais adiante será conhecido como texto ou lixo, conforme sua avaliação final, afinal ser dono serve de alguma coisa, não é mesmo?

O ato de escrever é voluntarioso. Ou você escreve ou você escreve, não há plano B. Uma vez o texto nascido, e com o mérito de não ter se tornado mais um bolinha com a tarefa de enfeitar o mundo reciclável, ele ganha a maioridade. Assim só lhe cabe abrir a porta, dar-lhe um beijo na testa desejando-lhe boa sorte no mundo lá fora. E lá se vai ele impresso ou virtual para desbravar as temidas fronteiras. O seu filho, o seu filhinho que ainda há pouco você tentava organizar ajudando-o a por-se de pé e dar os primeiros passos, já é maior de idade. Ele saiu de casa com uma missão: procurar novos amigos ou inimigos, despertar paixões ou iras, conceitos ou preconceitos. Você, respira aliviado pois sempre confia na educação que lhe dispensou, nos conselhos que se esmerou em dar e em toda estrutura que lhe possibilitou este voo autônomo, mas ele não é mais seu.

Agora sim, já que mais este se foi vou dormir, enquanto é tempo! Boa noite!

sexta-feira, 22 de julho de 2011

VISÃO

Fechou a porta
Esqueceu, propositalmente do lado de fora,
O juízo, a moral e os bons costumes.
Olhou nos olhos da sua fantasia mais alucinante
E a recepcionou com um largo sorriso.
O espelho ruborizou ao lhe ver assim,
Tão absolutamente plena de si própria.
As paredes aguçaram os ouvidos
Na esperança de perceber o que havia mudado
O eco dos saltos altos batendo no chão
Apressaram-se em disfarçar
Qualquer pensamento que fosse além da simples visão.
E é assim que ela queria,
Uma visão chapada, de uma única dimensão,
Sem profundidade, como em uma foto antiga.
Retrato que queria reviver e fazer regra de agora em diante.
Deitou-se nas almofadas para o esperar.
Não tardaria.
Já estava a caminho
Envolvidamente detido nas asas dos morcegos
Que mandara ao seu encalço.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

RABISCOS

Preciso te ver assim,
Fora do sonho.
Real, na minha frente.
Para que eu consiga
Conferir todos os contornos,
Que displiscentemente rabisquei,
Na esperança de te aprender de cor
Antes da prova final.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

PSIU

  Hoje eu quero         
 O frisson da montanha-russa,
O desalinho do tornado,
O calor do magma,
O arrepio do silvo da naja.
Pronto.
Pron-to!
P R O N T O !!
EI!! PSIU!!
NOSSA!!!
EU HEIN?!
Por que você ainda está aí parado
Com essa cara de bobo?!
Odeio ter que dar explicações!

terça-feira, 19 de julho de 2011

BOLHAS

Testo a água, cálida.
Tiro o robe e afundo devagar.
Total imersão. 
Deitada, brinco de te encontrar
No brilho das bolhas...
Olho atentamente, pois
Só podes estar lá!
Aquela espuma não pode ter aprendido,
Sozinha,
A arte de me enlouquecer...

segunda-feira, 18 de julho de 2011

RELATO


Espiou pelos olhos e fechou rapidamente as pupilas
Gostava de assistir tudo
Iluminada apenas pela luz colorida raiada que entrava pelas íris
Divertia-se tentando decifrar as imagens holográficas
Projetadas na tela da retina.
Excentricidades de velha, minha filha, excentricidades de velha...

domingo, 17 de julho de 2011

PASSEIOS


Um corredor escuro, longo e úmido
Cheio de idas e vindas
Idas e vindas
Idas e vindas
Idas e vindas
Idas e vindas
Idas e vindas
Idas e vindas
Idas e vindas
Idas e vindas
IDAS E VINDAS
Idas e vindas
Idas e vindas
Idas e vindas
Idas e vindas
Idas e vindas
Idas e vindas
Idas e vindas
Idas e vindas
I d a s

e

v
i
n
d
a
s
.
.
.

sábado, 16 de julho de 2011

ANDORINHA

A andorinha de origami passou diante dos meus olhos desafiando-me
Aceito o combate e faço-me de infinitas dobras em duas longas asas
Vamos ver quem irá alcançar o nascedouro da mais alta onda primeiro.
Concentro-me e parto depressa,
Ainda tenho que ultrapassá-la antes que o vento,
Torcendo pela eterna amiga,
Tente prejudicar o meu percurso.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

GARGALHADA

De uma gargalhada surgiu no meio da sala sisuda.
E com outra, saiu pela janela aberta,
Sem se preocupar com o rumo.
Até o presente momento,
Os convivas, do circunspecto ambiente,
Se perguntam o que realmente teria ocorrido...
Esforçam-se para manter o irretocável ar de enfado,
Que às pessoas sérias é imposto.
Sigilosamente, no entanto, lutam para não apagar
Aquela prazerosa sensação
De frio na barriga misturada com água na boca
Que aquele estridente som lhes causou...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

SEDE

Vou dançar para ti até que prendas fogo
Pretendo te derreter, lentamente, até encher um copo
Quero te beber de canudinho colorido,
Aos pouquinhos,
Em pequenos goles,
E te deixar satisfeito de teres aplacado minha sede.
Afinal, servistes para alguma coisa, não é mesmo?

terça-feira, 12 de julho de 2011

ANDARILHA

Ando na linha do horizonte.
Dali sou capaz de alcançar e me apropriar de todo o ouro contido no pote que jaz embaixo do arco-iris.
Pergunta básica:
“ – O que eu vou fazer com o ouro se sou uma andarilha condenada, eternamente, a seguir apenas esse trilhar?”

segunda-feira, 11 de julho de 2011

AMIGOS

Cinco portas de um corredor ensolarado.
Abro a primeira e lá encontro alguém com: Quiero charlar em un banco del parque disfrutando de todas las estatuas de su colección. Me gusta su compañia, sus palabras y su amabilidad.
Indo a segunda, encontro: Outro, e olhem que estranho, um único composto de três, sendo o primeiro real e os demais etéreos opostos. Debates e desfiles fazem parte do show onde a poesia é o cenário. Agradam-me suas provocações e palavras, tanto áridas quanto doces. Vivo na sua força e agradam-me seus triplos encantos.
Na terceira, vejo que: Há mais um, em que o contato com a natureza ao som da passarada se faz imprescindível. As conversas são entremeadas de longos silêncios cúmplices e presentes. O importante é que sabemos que ambos estão ali esperando uma garrafa a qualquer momento chegar na beira d'água com mensagens melodiosas e perfumadas de além mar.
Em frente a quarta porta sorrio quando percebo que: Il y a un autre que me fait sourire et qui comprend mes rêves, car il est si romantique que moi. Il est une personne douce avec humour sur son visage et un cœur prêt à aimer. Il est mon cher ami a qui j'embrasse toujours.
Na derradeira, vislumbro: Aquele que faz com que eu me sinta feliz e aconchegada no berço de suas palavras. Cuidado e zelo são as palavras coloridas pelo cheiro bom do pão de queijo que surge entre uma conversa e outra. Uma pessoa a quem tenho enorme admiração e prazer em conhecer. Risadas, sem nenhum pudor, palavras insanas e sérias dão a tônica de uma bonita e duradoura amizade.

Cinco portas, portanto, e 
Cinco pessoas importantes para mim. 
Cinco faces que me surgiram neste mundo novo que acabei de conhecer.
Cinco reflexos que já fazem parte do meu. 
Cinco amigos a quem eu mando um grande beijo e digo, 

OBRIGADA!

sábado, 9 de julho de 2011

DESMASCARADA

Flagrada, sorrio perplexa!
Como posso ter relaxado tanto a guarda
Ao ponto de perceberes o truque da mágica?!
Respiro fundo e penso, foi só dessa vez, nunca mais irá se repetir.
Só ainda não consigo conviver com a alegria que isso me causou.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

CAMUFLAGEM

Vermelho, amarelo e laranja
Provocam.
Laranja, vermelho e amarelo
Intimam.
Amarelo, laranja e vermelho
Chamam.
Hipnotizada, entro de um fôlego só na lareira...
Danço em meio as labaredas com uma única intenção:
Apropriar-me das formas, cores e calor disfarçando-me de chama.
Totalmente camuflada,
Aguardo-te pacientemente.
Está frio
E logo, logo irás querer descansar perto do fogo...

:) :) :) :)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

BIOMBO

Abriu o biombo e começou a despir-se vagarosamente
Retirou a razão e colocou-a na cadeira.
Guardou a lucidez na caixinha de veludo vermelha.
Livrou-se dos preconceitos, culpas e responsabilidades,
Pendurando-os no cabide do canto.
Olhou-se e sorriu.
Dirigiu-se para o leito com a certeza
De que agora poderia entregar-se por completo
Aquele que quisesse deitar entre seus lençois.

terça-feira, 5 de julho de 2011

BERÇO

No berço das tuas palavras durmo.
Alcanço o sonho embalada por tua respiração cuidadosa.
Rápido! Deixa que o sono te envolva também!
Vem aproveitar comigo esta manhã de sol
Que surge por detrás de nossas pálpebras...

segunda-feira, 4 de julho de 2011

LADRA

Queria um instante do teu dia,
Minutos do teu silêncio e cumplicidade.
Palavras não pronunciadas,
Mas sentidas na pele,
Risadas escancaradas,
Sonhos inconfessáveis!!!

domingo, 3 de julho de 2011

A TORRE

Branca e soberanamente bela erguia-se em meio a mata úmida. Alta e esguia buscava ferir os céus. Sem portas e janelas, guardava um segredo em seu interior. Chamava a atenção de todos que passavam, mas nunca ao ponto de convencê-los a aceitar o desafio que debochadamente propunha. Seguia impassível dias e noites sem que qualquer coisa se alterasse na paisagem.Certo dia passou por ali alguém mais curioso do que o costume. Parou, olhou e sorriu. Entendeu, desde logo, tudo o que se passava. Procurou o subsolo perto da torre. Vasculhou arbustos e a vegetação espessa encontrando uma pesada porta fechada. Pôs-se a trabalhar. Dobradiças enferrujadas custaram a ceder. Esforçou-se muito. Trabalhou com afinco. Conseguiu finalmente abrir a passagem. Uma escada surgiu a sua frente, lânguida e escura, convidando-o ao desconhecido interior. Enfrentou-a até o final. Nova porta, agora já não tão espessa quanto a anterior, abriu-se ao seu toque. Viu-a a tecer o enorme tapete com lãs que brotavam todas noites das paredes. Sorriram-se. Estenderam o tapete na pequena sala e o teto abriu-se para a noite estrelada. Voaram alguns instantes, ainda emaranhados pelos fios que se desconectavam, pouco a pouco, da antiga prisão. Permaneceram em círculos até que a torre entrasse definitivamente no solo. Foram-se para o reino dos sonhos para sempre com a linda tarefa de encantar as noites dos enamorados.

sábado, 2 de julho de 2011

PERDIDO

Da porta mal fechada fugiu rompendo o lacre ordinário e apresentou-se na minha frente
Reflexo desalinhado de cores opacas pelo mau acondicionamento
Passou a perseguir-me na esperança de reencontrar sua forma de origem e a ela unir-se novamente
Custou a perceber que jamais alcançaria seu intento
A imagem original havia mudado muito e já havia seguido outro caminho 
Repleto de diversas estradas e inúmeros rumos
Chorou quando deu-se conta da total incapacidade
Resignou-se, deprimido, na sua nova condição de lembrança
A ser arremeçada ao frustrante futuro do préterito 

sexta-feira, 1 de julho de 2011

FUGA

A névoa tomou conta do ambiente.
Densa, úmida, sufocante.
Mal conseguia distinguir as árvores retorcidas do caminho.
Seguia instintivamente com passos dúbios.
De quando em quando emaranhava a capa nos arbustos rasteiros.
Cansada e com pés fustigados pelas agruras da trilha parou para descansar.
Dormiu rápido, mas foi acordada abruptamente pelo som dos cães que não desistiam de lhe caçar.
Cansou de agir dentro da normalidade.
Assumiu sua sina.
Deixou que o longo abrigo caísse ao chão.
Permitiu que todo seu interior aflorasse.
Em breves instantes, os cães passaram e não a viram mais...
Jamais poderiam imaginar que a dissolução operara-se,
Transformando-a instantaneamente
Naquele intenso faixo de luz
À beira do abismo...