quinta-feira, 29 de setembro de 2011

SONHOS

Não se deixem enganar!
Os sonhos são dissimulados,
Parecem ser realidade,
No entanto,
Eles apenas parecem,
Pois continuam sendo sonhos.
Ainda bem!

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

BRINCADEIRA

Com olhar debochado 
Ele a observava mudo
Queria saber até onde ela aguentaria séria.
Ela, por sua vez, pensava em coisas tristes
Para tentar fugir do impulso de cair na risada aberta,
Pois seus olhos já gargalhavam.
Ficaram assim por algum tempo
Até que ouviram passos se aproximando da sala.
Posicionaram-se rapidamente.
A porta abriu e o soturno homem entrou
Sentando-se na poltrona.
Começou a ler o jornal com enfado.
Em seguida,
A obesa senhora invadiu a peça
Reclamando do dia, das dores, do homem.
Discutiram e foram-se,
Cada qual para o seu lado.
As sérias fotografias na parede
Sentiram-se aliviadas com a partida.
Esse tempo nunca as pertenceria afinal
Espertamente, 
Tinham se deixado ficar 
Nos anos mais felizes da antiga vida.
Olharam-se e retornaram, de imediato,
A velha e agradável brincadeira
Dos sorrisos proibidos.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

ENGODO


Sentei no canto do mundo
E me escondi sob o véu da paisagem.
Mal respirava com medo
De que os olhos voltassem
Com seu dedo em riste
A me acusar.
Tinha certeza
Que, se permanecesse em silêncio,
Nunca perceberiam a minha presença,
Suspenderiam a busca
E escoariam para dentro dos bueiros
Aos quais pertenciam
Orgulhosos e certos
De terem vencido facilmente 
Mais aquela batalha 
Contra os que insistem em serem felizes.
Coitados!

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

ROTINA

Entrou no ônibus.
Movimentou-se no corredor lotado
E, com dificuldade, conseguiu um lugar para sentar.
Riu e botou a língua ostensivamente
Para a rotina.
Fechou os olhos e suspirou
Adentrando, de imediato,
No enigmático mundo dos sonhos.
A taciturna figura,
Repleta de relógios e agendas,
Ficou em pé ao seu lado,
Estática e inconformada com tamanha rebeldia.
Aguardava, ansiosa,
Que aquele repugnante desfrute terminasse
Para que, finalmente,
Pudesse por-lhe a viseira, a mordaça e as correntes,
Acessórios dignos para mais um dia de escravidão
A ser cumprido em honra ao Senhor do Tempo.

domingo, 25 de setembro de 2011

PITÁGORAS

Da aula de matemática só aprendi
Que se eu me chamar hipotenusa
E entrar dentro de um quadrado
Terei dois catetos no mesmo quadrado
Só para mim!
Viva a trigonometria!

sábado, 24 de setembro de 2011

NADA

Um dia surgiste do nada
Enquanto eu tentava escolher novos caminhos.
Sorriste ao pegares na minha mão.
Em silêncio, conduziste-me pela trilha mais sinuosa
E, portanto, a mais bela.
Tive medo dos erros e tropeços que cometi pelo percurso.
Continuavas firme.
Da tua determinação tirei minha força em prosseguir.
Mesmo tendo dúvidas de onde irias me levar.
Acreditei cegamente em ti
Quando paraste,
Mandando que eu fosse em frente.
Não olhei para trás.
Confiei.
Sabia que estavas me cuidando.
Foi por ti que dei o último passo
Rumo a imensidão do espaço vazio.
Na velocidade da queda livre,
Confortada fiquei
Quando te vi,
Feito em luz,
Na porta da nuvem a me aguardar.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

CAFÉ

Pegou o bule azul pintado e
Serviu-se do café quente.
Sentou-se à mesa
Encantada com a fumaça que dele se levantava.
Como uma pitonisa
Que interpreta sua bola de cristal,
Tentou desvendar os segredos do vapor dançante.
Viu castelos
Que se transformavam em barcos
Que assumiam a forma de joias
E terminavam em sorrisos.
Identificou, de imediato, o frescor da boca
Que, abusada, flanava a sua frente.
Fechou os olhos e deixou-se beijar
Por um longo período
Até que todo o calor da negra bebida
Pudesse invadi-la por completo
Aquecendo todas as gotas gélidas
Que ainda vertiam do seu coração.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

TU

Pretensioso.
Sempre surges no meio dos holofotes
Da cena tão cuidadosamente elaborada
E queres roubar a atenção da plateia.
Egocêntrico.
O mundo gira em volta do teu umbigo
As estrelas e o sol brilham para ti apenas.
Assim, não há construção que se sustente sem a tua presença.
Intrigante.
Envolto em uma aura de desconhecimento e magia
Já foste pássaro, mar e pedra.
Já te vestiste de vermelho
E aceitaste o convite para conhecer o lado escuro da lua.
Envolvente.
Romantismo e sensibilidade formam tua forte essência
Cativas, ainda que te preserves
Inflamas, ainda que te negues.
Apoteótico.
Tomaste-me de assalto e por ti deponho minhas armas
Sorrio na tua indignação e entrego-me aos teus caprichos.
Mas lembra-te:
Tudo tem um preço.
Pretensiosa, egocêntrica, intrigante,  envolvente e apoteótica,
Também sou.
E vou pensar em algo bem elaborado
Para te fazer sofrer,
Se não me desejares na mesma proporção que eu te desejo.
Toma cuidado!

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

ENCONTRO

Multidão.
Milhões de rostos.
Apenas um eu buscava.
Tinha a descrição de cor:
Olhos negros amendoados,
Boca larga,
Nariz proporcional,
Cabelos pretos e fartos,
Pele clara.
O brilho do conjunto era essencial.
Encontrei-o como em um susto bom.
Fui encontrada por ele no mesmo instante.
Estreitar a distância no corpo a corpo da árdua trilha,
Tendo apenas a onda de calor como guia
Passou a ser a preocupação principal.
Enfrentamos e debelamos todos os obstáculos,
Que no nosso caminho se impuseram.
Sorrimos ao constatarmos que estávamos frente a frente.
Estabelecemos, de imediato, a conexão esperada.
Nada mais importava,
Afinal, ninguém poderia nos ver,
O facho de luz que acoberta aqueles que se desejam
Protegia-nos com cuidado..
Cargas elétricas riscaram o ar.
Em meio ao povo em festa,
Fomos um do outro,
Com a sofreguidão daqueles 
Que aguardaram um longo prazo de espera.
Seguia  barulho e a impessoalidade da massa grassava,
Enquanto, aconchegados em um só abraço,
Esperávamos, satisfeitos e extenuados,
O novo dia nascer.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

PIANO

Sentou-se ao piano e respirou fundo.
Ainda não sabia ao certo como fazê-lo.
Idealizou tudo que não poderia faltar,
Sim, esse é um bom começo, pensou.
Dispôs as duas mão sobre o teclado.
As unhas rubras contrastavam com as alvas teclas
E disputavam lugar com as negras.
Não deu atenção,
Afinal haveria vida sem o vermelho?
Decididamente não.
Fez-se ereta, pés nos pedais.
Soou a primeira nota,
Que julgou ser a principal
E, a partir dela, as demais.
Enquanto a melodia se elevava da sua alma
As notas que escapavam no ar
Iam construindo, passo a passo a nova figura.
Começaram pelos olhos, boca, rosto, cabelos, corpo, braços e pernas.
No instante mágico, ele se fez belo e sonoro,
Pegou-a pela cintura e convidou-a para a valsa
Entoada, imediatamente pelo obediente instrumento,
Que, como enamorado distante,
Sentia-se recompensado em vê-la
Tão feliz

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

HORAS

Soube que eram horas
Na hora de provocar, seduziu.
Fez-se interessante e divertida.
Sorriu e desdenhou.
Na hora de concretizar, surpreendeu.
Foi audaciosa e impertinente.
Deu e exigiu.
Na hora de terminar, assustou-se.
Havia espantado da sua compreensão
Toda e qualquer ideia
De que um dia
O inevitável deveria se impor.
Baixou a cabeça,
Reerguendo-a no instante seguinte
Com a expressão mais impassível e displicente
Que conseguira formar.
Era chegada
A hora de fingir.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

GAYA


Em meio ao ardente flerte e tostados pelo voraz sol do balneário sentiram a areia abrir-se sob seus corpos nus e tragados foram por Gaya. Durante a terrível e assustadora queda uniram-se como puderam. Mãos e pernas procuravam-se no afã de segurança. Totalmente tomados pelo desespero caiam cada vez mais rápido e, em questão de segundos, amparados foram pelo grande e suntuoso leito que os acolheu em pleno ar, aterrissando calmamente no estranho do ambiente.

Olharam-se e olharam em volta. Espelhos por todos os lados fechavam o espaço arredondado em que tochas serviam como iluminação. O ar irrespirável abrilhantava o cenário com sua terrível sensação claustrofóbica. A brancura dos lençóis era um ponto de luz, considerando a cor vermelha escura que imperava. De cada espelho surgiu um rosto com uma expressão. Apavorados os amantes tentavam se cobrir mutuamente. O que queriam? Quem seriam? Sem respostas imediatas, esperavam mudos.

O ar carregado os deixava zonzos e amolecidos. Aos poucos iam intuindo o que deveriam fazer. O contato dos corpos fez surgir a excitação carregada pelo medo. Desnudos e quentes voltaram a se descobrir avidamente, sem se importar com o resto. Algo lhes dizia ser esta a regra incomunicável até então. Em colados e besuntados beijos uniram-se diante de todos. As mãos dela deslizavam incessantemente pelo corpo dele, procurando-lhe explorar todos os redutos, enquanto ele afagava-lhe os cabelos, descendo pelas costas. O frenesi reinante era característica daqueles que muito se desejam. Embevecidos um pelo outro, já não se intimidavam mais com os olhares do entorno que, curiosamente, seguiam aumentando.

Ele deitou-se impassível e ela colocou-se de joelhos entre suas pernas levemente abertas a fim de melhor explorar-lhe o corpo delicadamente com a língua e com as mãos. Iniciou as carícias pelo rosto, pescoço, mordiscando-lhe a nuca e deixando seus seios na altura da boca do amado que os sorvia delicadamente. Descendo, deliciou-se no forte peito, brincando-lhe com os pelos e arrepios, enquanto ele emaranhava seus dedos pelos longos cabelos que ela lhe oferecia. Continuando sua trilha, desceu-lhe entre beijos e lambidas pelo ventre, sorvendo-lhe longamente o umbigo causando-lhe a a reação de puxar-lhe os cabelos, que trazia nas mãos como rédeas, a ponto de direcionar o melhor gozo. Deliciava-se em dar-lhe prazer, tremia por isso. Queria tê-lo como parte dela, ansiava em ser dele. Nada mais importava. Quanto aos olhares? Que olhassem!

Ergueu-se e, em movimentos giratórios compassados em cima do parceiro deitado, fez-se dele gozando a cada centímetro de avanço. Comandou o ritmo, acelerando e reduzindo, conforme a necessidade pedia. Fremia com o prazer que desfrutava. Exigiu também que suas mãos lhe agarrassem forte, muito forte. Queria sentir-lhe os dedos marcando sua pele. Queria gozar comandando a situação queria o prazer que tudo aquilo lhe causava, queria dar-lhe igual gozo, queria gritar e gritou. Gritaram. Gritaram muito e sorriram, sem se importar com o resto.

Exaustos e satisfeitos perceberam o incrível número de rostos estavam a sua volta, sempre dentro dos espelhos, seguiam mudos e impassíveis procurando captar toda a magia vital que havia circulado naquele momento, única energia capaz de ser utilizada para fugirem das profundezas que se encontravam, Conseguiram. Assim, nada mais lhes importava. Eles já não eram mais necessários. Com a mesma força que foram tragados foram impulsionados novamente à superfície, cuspidos por Gaya para o mundo exterior.

Acordaram na praia com frio e confusos. Já era noite. Vestiram-se e foram embora de mãos dadas sem qualquer palavra. Afinal, se alguém lhe relatasse essa história eles jamais a acreditariam como possível...


VOLTO SEGUNDA-FEIRA
UM BEIJO

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

REMENDOS

Olho em silêncio pelo vidro.
Minha respiração tenta disfarçar
Embaçando a imagem que existe do outro lado
No afã de proteger-me contra o inevitável.
Insisto limpando a superfície com a manga da blusa.
Quero ver, preciso, só isso.
Tenho que ter certeza que não retornará mais.
Convenço-me do inevitável quando vislumbro,
Ao longe, a silhueta afastando-se, determinada.
Foi-se para sempre concluo.
Corro e pego a caixa de costura.
Agulha, linha e dedal.
Preciso cerzir,
Com urgência,
O rasgo que me sobrou na alma
E seguir o meu caminho
Remendada, sim,
Mas acreditando
Que ainda há a possibilidade
De ser feliz..

terça-feira, 13 de setembro de 2011

FILME

Não posso me distrair nunca!
Assim já está demais!
Quando menos espero
Entras sem a menor cerimônia
E te instalas na sala dos meus olhos.
Deitas-te na rede das minhas íris, 
Com a cabeça,
Confortavelmente acomodada,
No travesseiro negro das minhas pupilas e
Usas, sem te importares com nada,
A minha retina como tela
Para projetares
Aquele antigo e amarelado filme
Em que éramos
Felizes para sempre.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

VENCIDO

Pensa que disfarça
Crê que não percebo
Finjo que não vejo
Acredito que iludo
E nesse jogo de avanços e recuos
Seguimos no tabuleiro
Pulando de casa em casa
Querendo ser vencido
A todo custo.

sábado, 10 de setembro de 2011

MISANCENE

De flores e de dança fez-se o sorriso
Adentrou todo arrumado e convicto de que iria encantar.
O sonho entrou correndo para não perder a sessão
Detestava que a realidade o ganhasse
Era muito competitivo.
A realidade amarra ainda mais a carranca 
Quando percebe que o sonho já chegou e está na primeira fila, debochado.
Com os olhos inchados, o choro se fez presente
Repleto de pessimismo e mágoa não suportava os finais felizes.
Escrachada como sempre, a gargalhada ironizava a tudo e a todos
Não levava nada a sério e tomou assento no fundo do teatro.
Começando a misancene  e todos no mais profundo silêncio contido.
Ergue-se o pano.
Surge, no palco, a sedução.
Vestida de vermelho com uma flor nos cabelos
Dá início ao espetáculo brindando a todos com 
O mais perfeito streap-tease que já realizara.
Ao retirar a última peça com seu atrevido recato
Olhou para a plateia e constatou que
O sorriso cessou.
O sonho acordou.
A realidade findou.
O choro secou
A gargalhada calou.
Retirou-se com elegância de cena,
Silenciosamente.
Destestava importunar o próximo número.
O prazer, que já estava a postos para o seu ato,
Entrou flutuando entre os presentes
Incendiando e  enlouquecendo
As hipnotizadas imaginações.
Depois de tanta expectativa,
Rufaram os tambores,
O grand finale da função se aproximava.
Com um "ah" coletivo e uníssono
Todos foram agradavelmente surpreendidos
Pelo surgimento, no meio do palco,
Do inesperado, mas não tão estreiante
Gozo final.
Caem as cortinas
Ao som dos suspiros e gemidos
Despudorados.
A sensação de relaxamento tomou conta do ambiente.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

TANGO

Os enfáticos acordes do tango rasgam o ambiente. Uma clareira abre-se no centro do salão e os holofotes caem sobre ela. Seu vestido negro cintila e a flor vermelha nos cabelos aguça a curiosidade. A fenda da justa saia deixa suas pernas a mostra. Uma liga de cetim preto no alto da coxa pode-se perceber sobre a escura meia fina de transparências rendadas. Saltos altíssimos completam a estampa imóvel. O violoncelo chora respondido pelo bandolion e violino. O piano apresenta-se compassado.Todos exigem que ele se aproxime. Olhos atentos para o outro canto da sala. Impecável em seu terno escuro, calça de risca de giz, sapatos bicolores e cabelos penteados para trás vem firme marcando cada passo. Com os olhos fixos colam-se os corpos. Entre os giros do tango dançam pelas mesas, paredes e teto. O magnetismo dos corpos não permite um segundo de afastamento fazendo com que todas idas tenham voltas abruptas e dramáticas. Entregam-se um ao outro. Pertencem um ao outro. O suor de ambos se mistura exalando o doce aroma da paixão arrebatadora. Querem-se juntos e dançando. Pernas se entrelaçam no bailado e os ganchos são executados com perfeição. Entre voos e rostos colados desenvolvem os movimentos rumo à sacada. Energizam-se junto ao luar e ao vento fresco da noite sem perder o ritmo e o amor coreográfico. Sentem que os olhos dos demais os queimam. Inveja, frustração, sentimentos mesquinhos daqueles que não são capazes. Não ligam. Seduzidos e hipnotizados dançam sobre a murada. Terminam o número unidos em um longo beijo, sorvido entre línguas e dentes, com sabor do fogo que o momento exigia. Por um segundo deram-se conta que se mereciam há muito. Pena que só puderam se encontrar na cena final.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

RESIGNAÇÃO


Vivia com muita intensidade.
Perdia sangue regularmente.
Sua vivacidade ia diminuindo
Na mesma proporção das suas hemácias
Recusava-se a entender
O porquê disso
Logo, não dava a menor importância,
Seguindo a normalidade.
O ritmo decrescia a olhos vistos
Ela secava, mas seguia feliz.
Já tinha se dado conta,
Há algum tempo,
Que nada poderia fazer para mudar
Assim, decidiu definitivamente
Que brigaria apenas
Pelo direito de sorrir
Até o fim.
E sorriu.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

SAX

Foco de luz branca concentrada no meio da cortina.
Da pequena abertura surge ela
Capa negra até os pés
Cabelos cobertos por um capuz
Soa o saxofone um blues sentido
Com presença de cena,
O corpo faz-se sinuoso
Sob o escuro manto.
Aos poucos vislumbram-se os braços e mãos
A desatar a fita que prende no pescoço.
Cai a capa pesadamente ao chão.
Cabelos esvoaçantes
Vestido longo e rubro.
Bordados no mesmo tom
Conferem brilho à peça.
Luvas de cano alto, pretas
Destacam os movimentos lânguidos e ritmados
Vira-se de lado e começa a tirar as luvas
Joga primeira para o alto e a segunda para a plateia 
Que atônita permanece em silêncio.
De costas abre a saia arremeçando-a para os bastidores.
Pernas longas, corpo curvilínio 
Parece deitar para repousar
No som do instrumento que segue sua tarefa.
Em um jogo de dança despe a blusa 
Ficando com o espartilho vermelho,
Meias de fina seda 7/8 e saltos muito altos
Desloca-se no espaço cênico 
Ora de costas, ora de frente
Calmamente descalça os sapatos e desce as meias
Costuradas atrás das pernas e presas no espartilho.
Com toda a sensualidade pretendida
Abre um a um os botões do espartilho
Escondendo-se atrás do biombo 
De voal transparente iluminado por trás
Surgido, ninguém sabe de onde, no canto do palco.
Lança as últimas peças para fora
E nua dança em seu abrigo coberto
Para encantar a todos com sua silhueta esguia.
Apagam-se as luzes 
O sax para de soar
E nenhum outro movimento se pode sentir.
Quando voltam a acender as luzes
Ningém mais há no palco.
Soam o terceiro e derradeiro sinal,
O espetáculo está para começar.
Abrem-se as cortinas
No cenário pesado
A peça tem início
Como de costume.
A dúvida fica em relação ao inusitado prólogo
Que todos se lembram, mas ninguém ousa perguntar
Uma vez que nunca constou no programa, 
Tampouco no script
Do teto, ela ainda sorri para todos
E desnuda embarca na primeira brisa
Rumo ao horizonte claro
De onde já se podiam ouvir 
Os primeiros acordes
Do saxofone. 

terça-feira, 6 de setembro de 2011

PRIMAVERA

Flutuando na tona d'água 
Ela estava coberta de pétalas.
Olhos parados, lábios selados
Braços abertos, pernas unidas.
O vestido azul, outrora esvoaçante,
Confundia-se com o fundo da piscina.
Dissolvia  pouco a pouco
Exalando o doce perfume.
Até o final da tarde a metamorfose deve estar completa,
Pensou Mãe Flora,
Impaciente para que tudo acabasse 
Antes do novo raiar do sol.
Afinal, 
Precisava dela para comandar o florescer
De uma infinidade de jardins
Já que a Primavera não tardaria a chegar.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

JOGADORA

Dançava e vivia a magia do movimento.
Sentia que a cada passo seu corpo transmutava-se em vários outros.
Formas e cores variadas projetavam a melodia da música 
Ora doce, ora melancólica
Sombras ilógicas procuravam o alinhamento ideal,
Perdendo o tino cada vez que a mutação ocorria.
Cobria-se de véus para encantar
E descobria-se para enlouquecer.
Gostava do calor que lhe inundava o corpo 
Deleitava-se com o fogo que lhe impulsionava a mente
Dando-se prazer na medida que o ofertava.
Era livre, era sua, era de ninguém,
Simplesmente era jogadora
E com as cartas na mesa,
Esperava o desafio
Haveria?

domingo, 4 de setembro de 2011

RECOMEÇOS

Ao som da harpa e do violoncelo ela o aguardava.
Cabelos voando sobre seu claro rosto,
Em decorrência dos fortes ventos da noite,
Impediam-lhe a visão do horizonte.
Esperava no barco que os levaria dali para sempre.
Em êxtase ouviu o tropel do branco cavalo.
A simples aproximação dele levava-a levitar.
Tinha que respirar fundo para que não se permitisse partir sozinha.
Com o rubro sorriso o recebeu finalmente
Quando a sua frente ele se colocou.
De mãos unidas sentiram-se firmes.
Já podiam ir.
A nova vida já os chamava.
Aos beijos deitaram-se no fundo da embarcação.
A negra figura sem rosto,
No comando da viagem,
Deu o primeiro impulso rumo ao fim adequado.
Foram-se tranquilos aos novos campos de vida
Enfrentando o final com a dignidade dos que entendem
O encerramento de um espetáculo
Como o início do próximo.

sábado, 3 de setembro de 2011

OLHARES

Entra, senta, fica à vontade.
Escuta a música.
Degusta o vinho.
Relaxa que eu vou te encantar.
Quero dançar para ti
Te enlouquecendo nas ondulações do meu corpo
E no brilho dos meus cabelos.
Se me olhares fixo vou te fazer corar
Tirar o teu tino
Te enlouquecer.
Se me olhares com desdém vou te fazer sofrer
Tirar o teu sossego
Te importunar
Se me olhares apenas vou te entender
Tirar o meu vestido
E em ti me perder.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

RECADO

Parou tudo!
Agora presta atenção!
Olha! É sério!
Quero te ter e vou te ter.
Ponto final.
Me aguarde!

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

ESQUINA MOVIMENTADA

Tudo era tão fresco. O ar de novidade instigava a prosseguir. Não desistiram. Chegado o dia, lá estavam. Ele aguardava em pé na esquina movimentada. Ela parou o carro para que pudesse embarcar. Trocaram rápidas e incertas palavras, salpicadas de nervosismo mútuo. Sorriram e procuravam não se encarar. Seguiam na certeza do acordo. Ela deu-lhe a chance de desistir. Não quis, o combinado deveria ser mantido. Rumaram ao destino. Subiram as escadas e entraram sem pressa. Ela colocou uma música e lhe ofereceu champagne. A excitação já tomava conta de ambos em igual escala, mas cada qual a seu modo. Sentaram-se. Ela tirou os sapatos e tentou conversar para descontrair. A chuva começou forte. No sofá, olharam-se nos olhos. Ela o beijou longamente e a chama acendeu todo seu lume. Livraram-se das roupas em instantes em meio a carícias mudas. Somente a respiração era ouvida. Beijos intermináveis intercalados por toques e línguas davam a tônica do encontro. Olhares desvairados faiscavam cada vez que, assutados, se cruzavam. Posições diversas foram experimentadas. Pingos de suor encharcavam os corpos. Cada passo era novo e inusitado. A loucura tomava conta dos amantes e era  responsável pelo total esquecimento do contexto. O prazer foi de igual para igual, apesar das diferenças existentes. Queriam-se mais do que tudo naquele momento. Gemeram, gozaram, brincaram, arfaram e sorriram exaustos dentro da bolha que eles mesmos criaram. Ao final, tomaram um longo banho juntos, onde aproveitaram para selar e ocultar as derradeiras marcas. Secaram-se nas toalhas brancas. Vestiram-se e partiram na tarde abafada de verão ainda sem palavras. Com um beijo final, despediram-se na mesma esquina movimentada. Ele seguiu seu caminho, sem olhar para trás. Ela custou mais um pouco, mas encerrou a história trancafiando-a na caixa etiquetada como a tarja: “lembranças boas e surreais que um dia vivi” tentando se convencer que seria melhor assim.