quinta-feira, 28 de novembro de 2013

UNIÃO

Quando me vi refletida
No fundo dos teus olhos
Entendi a permissão.
Sem perda de tempo
Livrei-me da pele
Junto com a roupa
Que há tanto me resguardava
E, nas tuas costas, aderi.
Pouco a pouco
Senti me infiltrar 
Na tua corrente sanguínea
Com a alegria
De um balanço
Em uma tarde de sol
Fui te percorrendo, lentamente,
Em movimentos compassados,
Decididos.
Agora não tinha mais volta.
Sorriste com a sensação da minha presença
E, em um abraço apertado,
Envolveste teu corpo
Para me desejar boas-vindas.
Vibramos no mesmo tom.
Seguimos radiantes
Pela rua cinzenta
Ausente desta percepção.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

PRAZER

Das expectativas que me causas
Quero todas!
Coloco-as em fila
E exijo barulho.
Embalada pelos sons,
Roucos e estridentes,
Aproveito cada sensação
Que me presenteias.
Viajo no prazer do inacreditável
Em pleno sabor do impossível.
Gosto da surpresa dos teus olhos fechados
Sorvendo cada gota de mim
Em serena ebulição.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

VAMOS

Hoje estou leve
Vou voar um pouco.
Estou te esperando
Na terceira nuvem
À direita da aurora.
Não demora.
Vamos nos divertir.
Prometo.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

REGENERAÇÃO

Olhava por entre as árvores
E ainda podia ver a meia figura
Que se afastava altiva.
Deviou o foco
Procurando a si própria.
Sim, ainda estava ali
Grande parte do que fora.
Recomeçaria sem dúvida.
Encolheu-se para facilitar
O processo de regeneração.
Afinal, não é sempre que se tem
Uma metade arrancada.
Fez-se crisálida rapidamente.
Dormiu na espera
Da próxima primavera.

domingo, 17 de novembro de 2013

DERROTA

O chão fugiu.
Agarrou-se como pode
Nas lisas paredes.
Insuportáveis!
Divertiam-se ao perceber
A sua angustiante
Constatação do impossível.
Caiu depressa,
Caiu sem jeito,
Caiu chorando.
Foi engolida pelo nada,
Em poucos segundos,
Sem mastigar.
No breu completo,
Flutuando exausta,
Decidiu deixar-se ficar.
Um dia haveria de voltar
A vontade do recomeço...
Por ora, ali era seu lugar.
Tratou de dormir.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

terça-feira, 12 de novembro de 2013

NECESSIDADE

De mãos dadas
E corpos colados
Ultrapassamos a fina camada
Isolando-nos do ambiente.
Os tons furta-cor
Da superfície da bolha
Brincavam de montar
Quebra-cabeças prismáticos
em nossas peles.
Ao som da melodia,
Que tocava só para nós,
Transmutamos braços em pernas,
Rostos em cabelos,
Mãos em coxas.
Amalgamados, pelo calor do momento,
Fomos o que quisemos
E o que nunca havíamos imaginado.
Formas curvas, retas, oblíquas
Coloridas ou não
Afloraram com a energia
Redesenhando nossos contornos.
Exaustos demos o trabalho por findo.
Deslizamos rolando
Para o antigo espaço e voltamos à rotina.
Cada qual seguiu seu caminho
Até a próxima necessidade
De renascer.

sábado, 9 de novembro de 2013

EI!

Gosto do calor
Capaz de me derreter
Tal qual celofane 
Lançado ao fogo.
Tuas mãos tem.
Gosto do sabor
Que me faz salivar
Deixando-me insaciada
A cada prova.
Tua pele tem.
Gosto do som
Do atrito, do murmúrio 
E do grito
Suspensos no ar
Aguardando a explosão.
Teu corpo tem.
Assim, completados os requisitos,
Só posso te dizer uma coisa: 
VEM!

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

GALEGO

Hoje, sonhei nossa realidade.
Não haviam palavras, mas músicas.
Olhares eram substituídos por toques
Cegos em todas direções,
Permitidas ou não.
O calor, desfeito em fios vermelhos,
Tricotava a trama perfeita,
Em que tu e eu éramos o adorno principal.
Havia muitas pessoas ao nosso redor.
Passavam, sem rosto, de um lado para outro
Compondo o compasso dos ritmos em mudança.
Hoje, sonhei nossa realidade.
Acordei decidida que ali não era mais o meu lugar.
Fiz as malas com pressa e parti sem volta.
Aguardavas ansioso em meio a neblina,
Mas certo que eu não iria te decepcionar.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

AMÉM

Extraio as raízes
De forma desordenada.
A pressa faz com que
Grandes pedaços
Sejam brutalmente arrancados
Do entorno.
Choro a dor do perdido,
Mas sigo a meta.
Não é hora de pensar,
Mas de agir.
Que assim seja,
Portanto,
Que assim seja.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

FESTA

Entro na sala pouco iluminada.
Percorro todos os cantos
Olhando cada um dos espelhos
Com muito cuidado.
Busco freneticamente
Minha imagem real.
Encontro fragmentos
Do que fui, do que sou
E, talvez, do que serei.
Nenhum no mesmo reflexo.
Grito o mais alto que posso.
O barulho de estilhaços,
Que se segue,
É ensurdecedor.
Respiro fundo e lanço-me
A procura dos cacos corretos.
Tenho até o final da tarde
Para compor o quebra-cabeças
Que me tornei.
A festa não tarda
E a música, não espera.
Haja o que houver,
O encantamento deve continuar
Nunca me esquecerei disso.


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

ESTRATÉGIA

A palavra gritada ao ar
Açoitou o silêncio
Que se impunha.
Por que falar agora?
Nada mais havia
A ser dito.
O momento de ruminar
Assustou-se
E engoliu em seco...
Será que merecia
Tamanho desrespeito?
Ofendido, retirou-se
Dando lugar
A mais alta gargalhada de
Desprezo.