O homem de vermelho,
Em vestes de homem vulgar
Iluminado apenas pelo brilho do sol
Que escorria em ínfimos fios
Pelos buracos do telhado do teatro,
Entrou protestando aos brados .
Surgiu em cena resoluto, levando pela mão
Um menino de tenra idade.
O som do hino que o pequeno cantava
Confundia-se com aquele de autoria das cigarras.
Agudo e penetrante,
Ia deixando a todos zonzos
Arma essencial para chamar atenção.
Gritava o sujeito que haviam sido preteridos
E que não poderiam concordar com tamanho descaso.
Plantaram-se no meio do palco diante dos olhares atônitos da plateia tonta.
A autora, surpresa com tamanha irresignação,
Tratou logo de incluí-los na trama
Construindo um cenário digno de ambos
Assim como um texto impecável para ser desenvolvido
Pela estranha dupla recém chegada.
Sorrindo e entretidos com o desenrolar dos papeis
As duas figuras concentraram-se nas suas tarefas
Prosseguindo o espetáculo com competência.
Nos bastidores,
A autora senta-se exausta
Ainda desamassando o papel
Que já havia sido descartado minutos antes.
Deixa cair o lápis sobre a mesa.
Nunca poderia imaginar que um dia
Seria refém das suas próprias ideias.