Fui criança, criança.
Bricava de bonecas, de sapata, de corda e de bambolê.
Ria muito e falava demais (característica que conservo até hoje!).
Comia doces e pão com manteiga na frente da televisão
Vendo o Sítio, claro! (continuo adorando doces, uma perdição!)
Soltava pandorga, andava a cavalo, me sujava de terra.
Cantava, representava e imaginava ser princesas ou balconistas
(achava incrível emitir notas fiscais! Virei advogada tributarista!).
Gostava de cores e músicas.
Tinha um trio que era valorosamente composto por mim, minha irmã e minha melhor amiga
(O Trio das Caturritas, segundo meu avô, pois mais gritávamos do que cantávamos! Sempre fui incompreendida na minha musicalidade nata!).
Tinha eletrola com vários disquinhos de historinha
Que ouvia até a exaustão ou até o sono chegar.
Livros em profusão, cheios de letras e figuras.
Sapatilhas de balé e maiôs rosa com redinha para os longos cabelos da pequena bailarina.
Bicicletas, inúmeras (pois ficavam sempre no sitio de meu avô que foi assaltado 8 vezes .Os ladrões roubavam e o coitado me comprava uma nova. Minha avó dizia que ele estava colaborando com o transporte dos ladrões, que não se cansavam de voltar sempre).
Andava voando no meu incrível veículo de todo jeito, de pé, de costas, sem as mãos.
Tudo isso me dava o direito a multiplas escoriações nos joelhos e cotovelos, regadas a algumas lágrimas.
Adorava brincar de pegar na calçada nas noites de verão,
Apertando uma ou outra campainha das casas da vizinhança.
Saía correndo em seguida para não ser flagrada.
Queria ser astronauta, só para ver além da Terra e voar em um foguete prateado.
Entrava na piscina ou no arroio e só saía de lá murcha
Depois de muita briga.
Não me preocupava muito que um dia seria adulta,
Isso estava fora de cogitação naquela época.
Fui criança, criança
E acho que até hoje não perdi esse gosto,
Ainda bem!
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
terça-feira, 11 de outubro de 2011
PREVISÃO
Ao atravessar a rua
Com os pensamentos vazios,
Fui surpreendida por tua figura.
De um salto fugiste das velhas cartas
Retilineamente colocadas sobre a mesa
Pela decrépita vidente.
Ao te materializares,
De imediato, raptaste-me por teu olhar.
Teus olhos insistentes iam atrás de mim
Arrancando-me sorrisos em cada esquina.
Como peças no tabuleiro,
Seguíamos, ultrapassávamos e esperávamos a próxima rodada.
Tu paraste, eu esperei.
Eu mudei de lado, tu me imitaste.
Rendidos, caminhamos lado a lado
Em um diálogo mudo de mútua atração.
O inusitado se fez
E a surpresa permitiu a troca de palavras por alguns espaços.
Tão logo nos vimos na reta de chegada,
Decidimos que não haveria vencedores.
Nos retiramos do jogo da mesma maneira como o iniciamos
Entendendo, no entanto, que essa atitude
Não era um fim, mas sim
Uma franca oportunidade de uma nova partida
Que não deveria tardar.
Com os pensamentos vazios,
Fui surpreendida por tua figura.
De um salto fugiste das velhas cartas
Retilineamente colocadas sobre a mesa
Pela decrépita vidente.
Ao te materializares,
De imediato, raptaste-me por teu olhar.
Teus olhos insistentes iam atrás de mim
Arrancando-me sorrisos em cada esquina.
Como peças no tabuleiro,
Seguíamos, ultrapassávamos e esperávamos a próxima rodada.
Tu paraste, eu esperei.
Eu mudei de lado, tu me imitaste.
Rendidos, caminhamos lado a lado
Em um diálogo mudo de mútua atração.
O inusitado se fez
E a surpresa permitiu a troca de palavras por alguns espaços.
Tão logo nos vimos na reta de chegada,
Decidimos que não haveria vencedores.
Nos retiramos do jogo da mesma maneira como o iniciamos
Entendendo, no entanto, que essa atitude
Não era um fim, mas sim
Uma franca oportunidade de uma nova partida
Que não deveria tardar.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
TEMPO
Um dia vai ter passado muito tempo
E tudo assumirá o conforto do sonho bom,
Que nasceu despretensioso,
Sem nunca ter tido a intenção
De ser realidade.
domingo, 9 de outubro de 2011
MUITO OBRIGADA!
Queridos Amigos,
Muito obrigada a todos e a cada um pelo imenso carinho e palavras que me dedicaram.
Estou muito feliz!
Um grande beijo no coração!
Neste mês, pretendo, uma vez ou outra, apenas a título de comemoração, relembrar alguns textos escolhidos por mim dentre os vários que postei desde o início do blog, por isso hoje reapresento a vocês:
Imagem do Google
LUA
A luz saía por seus poros dando-lhe um efeito de petit pois. A ansiedade escorria-lhe viscosa pela sola dos pés colando-a ao solo. Seus braços cruzavam-se contra o peito no instintivo sentimento de proteção. Quando seria o esperado momento? Estaria ela pronta? Seria mesmo necessário? O vento iniciou a soprar. Era um sinal da presença dele. Pedras de gelo derretiam ao longo da sua coluna. O calor gélido já tomava conta do seu corpo. A tempestade se avizinha, agora sim, definitivamente sim, era ele. O zumbido soou fraco mas já afetou seus ouvidos. Os passos já marcavam a areia da praia mas ele ainda não se deixava ver. Passos fortemente esculpidos, determinados ao seu encontro. Queria correr mas sabia que não seria possível. Aguardou. Os pés pararam a sua frente. Sentiu o calor dele, o seu toque sutil, o seu hálito. Não podia mais resistir, ele já sabia de tudo. Entregou-se sem luta, deixou que ele encontrasse o zíper. Esse foi aberto lentamente devolvendo ao céu a lua e jogando sua casca, sem vida, no mar.
Imagem do Google
LUA
A luz saía por seus poros dando-lhe um efeito de petit pois. A ansiedade escorria-lhe viscosa pela sola dos pés colando-a ao solo. Seus braços cruzavam-se contra o peito no instintivo sentimento de proteção. Quando seria o esperado momento? Estaria ela pronta? Seria mesmo necessário? O vento iniciou a soprar. Era um sinal da presença dele. Pedras de gelo derretiam ao longo da sua coluna. O calor gélido já tomava conta do seu corpo. A tempestade se avizinha, agora sim, definitivamente sim, era ele. O zumbido soou fraco mas já afetou seus ouvidos. Os passos já marcavam a areia da praia mas ele ainda não se deixava ver. Passos fortemente esculpidos, determinados ao seu encontro. Queria correr mas sabia que não seria possível. Aguardou. Os pés pararam a sua frente. Sentiu o calor dele, o seu toque sutil, o seu hálito. Não podia mais resistir, ele já sabia de tudo. Entregou-se sem luta, deixou que ele encontrasse o zíper. Esse foi aberto lentamente devolvendo ao céu a lua e jogando sua casca, sem vida, no mar.
sábado, 8 de outubro de 2011
UM ANO!
imagem Google
Queridos Amigos!
Este mês o blog comemora 1 ano de vida!
A escrita e a leitura sempre fizeram parte do meu dia a dia. Fui apresentada aos livros por meu avô e nunca mais consegui viver sem eles. Minha relação com a caneta, deslizando no papel sem rumo certo, começou na adolescência impulsionada por todo aquele fervor de contestações, dramas e vontades de modificar o mundo, comum aos jovens da minha época (já estou com 46! \0/).
Assim, ler e escrever tornaram-se para mim sinônimos de viver.
Quando decidi fazer um blog, confesso que não tinha a menor ideia do que seria um blog e tampouco como ele funcionava. Um amigo querido me deu algumas orientações sobre onde ir e como começar e aqui estou.
O mundo que se abriu para mim desde então foi muito além das minhas expectativas. Amigos maravilhosos, carinhosos, colaboradores, críticos na medida exata do bom significado da palavra, incentivadores e sobretudo acolhedores e prontos a partilhar suas ideias e ideais me fizeram uma pessoa mais feliz.
Assim meus queridos hoje eu gostaria de parar tudo e lhes dizer
MUITO OBRIGADA!
EU ADORO TODOS VOCÊS!
UM GRANDE BEIJO NO CORAÇÃO!
RUMO AO SEGUNDO ANO!
GISA
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
PERGUNTA
Sumiste, tudo bem.
Estás no teu direito,
Nunca vou me contrapor
A esse fato.
Apenas uma dúvida:
O que que eu faço
Com a insuportável silhueta vazada
Que deixaste no meu coração?
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
NASCIMENTO
Parou o pêndulo do relógio
Congelando aquele momento.
Não podia permitir que o movimento dos minutos a atrapalhasse
Precisava de calma para acomodar muito bem
O frágil sonho recém nascido
No berço frio
Construído com as arestas rígidas da realidade.
Seria uma falta de consideração.
Ter-se pressa em um instante tão precioso...
Afinal, não é todo dia que se consegue submeter alguém,
Tão imensamente livre,
A uma prisão consentida
Apenas ofertanto em troca
A singela oportunidade de
Presenciar o surgimento de um novo sorriso
Em nossos lábios.
Congelando aquele momento.
Não podia permitir que o movimento dos minutos a atrapalhasse
Precisava de calma para acomodar muito bem
O frágil sonho recém nascido
No berço frio
Construído com as arestas rígidas da realidade.
Seria uma falta de consideração.
Ter-se pressa em um instante tão precioso...
Afinal, não é todo dia que se consegue submeter alguém,
Tão imensamente livre,
A uma prisão consentida
Apenas ofertanto em troca
A singela oportunidade de
Presenciar o surgimento de um novo sorriso
Em nossos lábios.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
IMAGEM
Peguei diversas revistas
Papel branco, cola e tesoura.
Sentei-me no tapete da sala e comecei a folheá-las.
Gostei dos olhos abertos, azuis e expressivos,
Recortei.
Agradei-me da boca entreaberta e úmida
Retirei com cuidado.
O nariz fino e as sombrancelhas torneadas
Formariam um lindo conjunto,
Sem demora as destaquei.
No papel claro rabisquei um contorno
E no interior inseri meus recortes
Colando-os com cuidado.
Com giz de cera, fiz fartos cabelos negros
Que completaram o semblante.
Afastei-me para conferir melhor minha obra.
Parecia perfeita.
Colei-a imediatamente na face do espelho.
Agora sim,
Nunca mais iria ter que ver a dor
Que havias esculpido em meu rosto.
A partir daquele momento
Voltei a ser livre.
Papel branco, cola e tesoura.
Sentei-me no tapete da sala e comecei a folheá-las.
Gostei dos olhos abertos, azuis e expressivos,
Recortei.
Agradei-me da boca entreaberta e úmida
Retirei com cuidado.
O nariz fino e as sombrancelhas torneadas
Formariam um lindo conjunto,
Sem demora as destaquei.
No papel claro rabisquei um contorno
E no interior inseri meus recortes
Colando-os com cuidado.
Com giz de cera, fiz fartos cabelos negros
Que completaram o semblante.
Afastei-me para conferir melhor minha obra.
Parecia perfeita.
Colei-a imediatamente na face do espelho.
Agora sim,
Nunca mais iria ter que ver a dor
Que havias esculpido em meu rosto.
A partir daquele momento
Voltei a ser livre.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
PRAZO
Tu que te escondes e me espreitas,
Mal sabes que tenho o olhar treinado para encontrar-te.
Tu que já foste tão constante um dia
E agora finges uma amnésia forçada, certo que dissimulas tua ação.
Tu, que por medo ou conforto, assobias o melodioso canto do adeus
Esperando que eu impeça que te vás para sempre.
Sim, tu.
É contigo que quero falar.
É para ti que quero gritar,
Que apesar de todo esse jogo de desencontros, arduamente arquitetado,
Sigo te querendo com a mesma força e intensidade de antes.
Até quando?
Bem, pelo menos posso te garantir esse desejo
Por mais aluns longos e dramáticos
Cinco minutos.
Não te demora.
O relógio já iniciou a correr.
Mal sabes que tenho o olhar treinado para encontrar-te.
Tu que já foste tão constante um dia
E agora finges uma amnésia forçada, certo que dissimulas tua ação.
Tu, que por medo ou conforto, assobias o melodioso canto do adeus
Esperando que eu impeça que te vás para sempre.
Sim, tu.
É contigo que quero falar.
É para ti que quero gritar,
Que apesar de todo esse jogo de desencontros, arduamente arquitetado,
Sigo te querendo com a mesma força e intensidade de antes.
Até quando?
Bem, pelo menos posso te garantir esse desejo
Por mais aluns longos e dramáticos
Cinco minutos.
Não te demora.
O relógio já iniciou a correr.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
DECISÃO
Colocou o mais enigmático vestido
Cheio de fendas, tramas e surpresas.
Calçou os saltos mais finos e altos
Negros para dar maior estabilidade.
Maquiou-se suavemente
E prendeu os cabelos crespos em um coque.
Pegou a pequena bolsa e saiu para procurá-lo.
Atravessou a ponte para o outro lado do tudo
E surgiu como uma visão perfeita em sua soleira.
Ao abrir a porta,
Ele não acreditava que ela pudesse existir assim,
Tão bela.
Sorriu.
Afinal sempre tinha treinado sua imaginação
Para quando esse momento se concretizasse.
Fechou a casa sem demora
E de um salto pegou sua mão.
Partiram às gargalhadas
Para aproveitar cada minuto que haviam perdido
Na interminável espera do aceitável.
Cheio de fendas, tramas e surpresas.
Calçou os saltos mais finos e altos
Negros para dar maior estabilidade.
Maquiou-se suavemente
E prendeu os cabelos crespos em um coque.
Pegou a pequena bolsa e saiu para procurá-lo.
Atravessou a ponte para o outro lado do tudo
E surgiu como uma visão perfeita em sua soleira.
Ao abrir a porta,
Ele não acreditava que ela pudesse existir assim,
Tão bela.
Sorriu.
Afinal sempre tinha treinado sua imaginação
Para quando esse momento se concretizasse.
Fechou a casa sem demora
E de um salto pegou sua mão.
Partiram às gargalhadas
Para aproveitar cada minuto que haviam perdido
Na interminável espera do aceitável.
domingo, 2 de outubro de 2011
sábado, 1 de outubro de 2011
CORAÇÃO
Cravou as unhas vermelhas
No peito e o rasgou
Deixando exposto o coração
Pulsante.
Arrancou-o, de imediato
Não lhe permitindo tempo para raciocinar
E o ofereceu ao primeiro desavisado
Que passava na rua.
Esse, assustado com a bizarra prenda,
Jogou-o no mesmo instante
Na água suja da sarjeta
Que corria aos seus pés
Partiu balançando a cabeça.
Foi entre lágrimas que viu
O débil órgão
Parar de bater,
Pouco a pouco,
Congelando diante de seus olhos
E ainda sem ter noção do que realmente tinha se passado.
Preferiu deixá-lo morrer na bela ignorância do ocorrido
Do que confessar a feiúra das suas falhas.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
SONHOS
Não se deixem enganar!
Os sonhos são dissimulados,
Parecem ser realidade,
No entanto,
Eles apenas parecem,
Pois continuam sendo sonhos.
Ainda bem!
Os sonhos são dissimulados,
Parecem ser realidade,
No entanto,
Eles apenas parecem,
Pois continuam sendo sonhos.
Ainda bem!
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
BRINCADEIRA
Com olhar debochado
Ele a observava mudo
Queria saber até onde ela aguentaria séria.
Ela, por sua vez, pensava em coisas tristes
Para tentar fugir do impulso de cair na risada aberta,
Pois seus olhos já gargalhavam.
Ficaram assim por algum tempo
Até que ouviram passos se aproximando da sala.
Posicionaram-se rapidamente.
A porta abriu e o soturno homem entrou
Sentando-se na poltrona.
Começou a ler o jornal com enfado.
Em seguida,
A obesa senhora invadiu a peça
Reclamando do dia, das dores, do homem.
Discutiram e foram-se,
Cada qual para o seu lado.
As sérias fotografias na parede
Sentiram-se aliviadas com a partida.
Esse tempo nunca as pertenceria afinal
Espertamente,
Tinham se deixado ficar
Nos anos mais felizes da antiga vida.
Olharam-se e retornaram, de imediato,
A velha e agradável brincadeira
Dos sorrisos proibidos.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
ENGODO
Sentei no canto do mundo
E me escondi sob o véu da paisagem.
Mal respirava com medo
De que os olhos voltassem
Com seu dedo em riste
A me acusar.
Tinha certeza
Que, se permanecesse em silêncio,
Nunca perceberiam a minha presença,
Suspenderiam a busca
E escoariam para dentro dos bueiros
Aos quais pertenciam
Orgulhosos e certos
De terem vencido facilmente
Mais aquela batalha
Contra os que insistem em serem felizes.
Coitados!
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
ROTINA
Entrou no ônibus.
Movimentou-se no corredor lotado
E, com dificuldade, conseguiu um lugar para sentar.
Riu e botou a língua ostensivamente
Para a rotina.
Fechou os olhos e suspirou
Adentrando, de imediato,
No enigmático mundo dos sonhos.
A taciturna figura,
Repleta de relógios e agendas,
Ficou em pé ao seu lado,
Estática e inconformada com tamanha rebeldia.
Aguardava, ansiosa,
Que aquele repugnante desfrute terminasse
Para que, finalmente,
Pudesse por-lhe a viseira, a mordaça e as correntes,
Acessórios dignos para mais um dia de escravidão
A ser cumprido em honra ao Senhor do Tempo.
Movimentou-se no corredor lotado
E, com dificuldade, conseguiu um lugar para sentar.
Riu e botou a língua ostensivamente
Para a rotina.
Fechou os olhos e suspirou
Adentrando, de imediato,
No enigmático mundo dos sonhos.
A taciturna figura,
Repleta de relógios e agendas,
Ficou em pé ao seu lado,
Estática e inconformada com tamanha rebeldia.
Aguardava, ansiosa,
Que aquele repugnante desfrute terminasse
Para que, finalmente,
Pudesse por-lhe a viseira, a mordaça e as correntes,
Acessórios dignos para mais um dia de escravidão
A ser cumprido em honra ao Senhor do Tempo.
domingo, 25 de setembro de 2011
PITÁGORAS
Da aula de matemática só aprendi
Que se eu me chamar hipotenusa
E entrar dentro de um quadrado
Terei dois catetos no mesmo quadrado
Só para mim!
Viva a trigonometria!
sábado, 24 de setembro de 2011
NADA
Um dia surgiste do nada
Enquanto eu tentava escolher novos caminhos.
Sorriste ao pegares na minha mão.
Em silêncio, conduziste-me pela trilha mais sinuosa
E, portanto, a mais bela.
Tive medo dos erros e tropeços que cometi pelo percurso.
Continuavas firme.
Da tua determinação tirei minha força em prosseguir.
Mesmo tendo dúvidas de onde irias me levar.
Acreditei cegamente em ti
Quando paraste,
Mandando que eu fosse em frente.
Não olhei para trás.
Confiei.
Sabia que estavas me cuidando.
Foi por ti que dei o último passo
Rumo a imensidão do espaço vazio.
Na velocidade da queda livre,
Confortada fiquei
Quando te vi,
Feito em luz,
Na porta da nuvem a me aguardar.
Enquanto eu tentava escolher novos caminhos.
Sorriste ao pegares na minha mão.
Em silêncio, conduziste-me pela trilha mais sinuosa
E, portanto, a mais bela.
Tive medo dos erros e tropeços que cometi pelo percurso.
Continuavas firme.
Da tua determinação tirei minha força em prosseguir.
Mesmo tendo dúvidas de onde irias me levar.
Acreditei cegamente em ti
Quando paraste,
Mandando que eu fosse em frente.
Não olhei para trás.
Confiei.
Sabia que estavas me cuidando.
Foi por ti que dei o último passo
Rumo a imensidão do espaço vazio.
Na velocidade da queda livre,
Confortada fiquei
Quando te vi,
Feito em luz,
Na porta da nuvem a me aguardar.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
CAFÉ
Pegou o bule azul pintado e
Serviu-se do café quente.
Sentou-se à mesa
Encantada com a fumaça que dele se levantava.
Como uma pitonisa
Que interpreta sua bola de cristal,
Tentou desvendar os segredos do vapor dançante.
Viu castelos
Que se transformavam em barcos
Que assumiam a forma de joias
E terminavam em sorrisos.
Identificou, de imediato, o frescor da boca
Que, abusada, flanava a sua frente.
Fechou os olhos e deixou-se beijar
Por um longo período
Até que todo o calor da negra bebida
Pudesse invadi-la por completo
Aquecendo todas as gotas gélidas
Que ainda vertiam do seu coração.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
TU
Pretensioso.
Sempre surges no meio dos holofotes
Da cena tão cuidadosamente elaborada
E queres roubar a atenção da plateia.
Egocêntrico.
O mundo gira em volta do teu umbigo
As estrelas e o sol brilham para ti apenas.
Assim, não há construção que se sustente sem a tua presença.
Intrigante.
Envolto em uma aura de desconhecimento e magia
Já foste pássaro, mar e pedra.
Já te vestiste de vermelho
E aceitaste o convite para conhecer o lado escuro da lua.
E aceitaste o convite para conhecer o lado escuro da lua.
Envolvente.
Romantismo e sensibilidade formam tua forte essência
Cativas, ainda que te preserves
Inflamas, ainda que te negues.
Apoteótico.
Tomaste-me de assalto e por ti deponho minhas armas
Sorrio na tua indignação e entrego-me aos teus caprichos.
Mas lembra-te:
Tudo tem um preço.
Pretensiosa, egocêntrica, intrigante, envolvente e apoteótica,
Também sou.
E vou pensar em algo bem elaborado
Para te fazer sofrer,
Para te fazer sofrer,
Se não me desejares na mesma proporção que eu te desejo.
Toma cuidado!
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
ENCONTRO
Multidão.
Milhões de rostos.
Apenas um eu buscava.
Tinha a descrição de cor:
Olhos negros amendoados,
Boca larga,
Nariz proporcional,
Cabelos pretos e fartos,
Pele clara.
O brilho do conjunto era essencial.
Encontrei-o como em um susto bom.
Fui encontrada por ele no mesmo instante.
Estreitar a distância no corpo a corpo da árdua trilha,
Tendo apenas a onda de calor como guia
Passou a ser a preocupação principal.
Enfrentamos e debelamos todos os obstáculos,
Que no nosso caminho se impuseram.
Sorrimos ao constatarmos que estávamos frente a frente.
Estabelecemos, de imediato, a conexão esperada.
Nada mais importava,
Afinal, ninguém poderia nos ver,
O facho de luz que acoberta aqueles que se desejam
Protegia-nos com cuidado..
Cargas elétricas riscaram o ar.
Em meio ao povo em festa,
Fomos um do outro,
Com a sofreguidão daqueles
Que aguardaram um longo prazo de espera.
Seguia barulho e a impessoalidade da massa grassava,
Enquanto, aconchegados em um só abraço,
Esperávamos, satisfeitos e extenuados,
O novo dia nascer.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
PIANO
Sentou-se ao piano e respirou fundo.
Ainda não sabia ao certo como fazê-lo.
Idealizou tudo que não poderia faltar,
Sim, esse é um bom começo, pensou.
Dispôs as duas mão sobre o teclado.
As unhas rubras contrastavam com as alvas teclas
E disputavam lugar com as negras.
Não deu atenção,
Afinal haveria vida sem o vermelho?
Decididamente não.
Fez-se ereta, pés nos pedais.
Soou a primeira nota,
Que julgou ser a principal
E, a partir dela, as demais.
Enquanto a melodia se elevava da sua alma
As notas que escapavam no ar
Iam construindo, passo a passo a nova figura.
Começaram pelos olhos, boca, rosto, cabelos, corpo, braços e pernas.
No instante mágico, ele se fez belo e sonoro,
Pegou-a pela cintura e convidou-a para a valsa
Entoada, imediatamente pelo obediente instrumento,
Que, como enamorado distante,
Sentia-se recompensado em vê-la
Tão feliz
Ainda não sabia ao certo como fazê-lo.
Idealizou tudo que não poderia faltar,
Sim, esse é um bom começo, pensou.
Dispôs as duas mão sobre o teclado.
As unhas rubras contrastavam com as alvas teclas
E disputavam lugar com as negras.
Não deu atenção,
Afinal haveria vida sem o vermelho?
Decididamente não.
Fez-se ereta, pés nos pedais.
Soou a primeira nota,
Que julgou ser a principal
E, a partir dela, as demais.
Enquanto a melodia se elevava da sua alma
As notas que escapavam no ar
Iam construindo, passo a passo a nova figura.
Começaram pelos olhos, boca, rosto, cabelos, corpo, braços e pernas.
No instante mágico, ele se fez belo e sonoro,
Pegou-a pela cintura e convidou-a para a valsa
Entoada, imediatamente pelo obediente instrumento,
Que, como enamorado distante,
Sentia-se recompensado em vê-la
Tão feliz
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
HORAS
Soube que eram horas
Na hora de provocar, seduziu.
Fez-se interessante e divertida.
Sorriu e desdenhou.
Na hora de concretizar, surpreendeu.
Foi audaciosa e impertinente.
Deu e exigiu.
Na hora de terminar, assustou-se.
Havia espantado da sua compreensão
Toda e qualquer ideia
De que um dia
O inevitável deveria se impor.
Baixou a cabeça,
Reerguendo-a no instante seguinte
Com a expressão mais impassível e displicente
Que conseguira formar.
Era chegada
A hora de fingir.
Na hora de provocar, seduziu.
Fez-se interessante e divertida.
Sorriu e desdenhou.
Na hora de concretizar, surpreendeu.
Foi audaciosa e impertinente.
Deu e exigiu.
Na hora de terminar, assustou-se.
Havia espantado da sua compreensão
Toda e qualquer ideia
De que um dia
O inevitável deveria se impor.
Baixou a cabeça,
Reerguendo-a no instante seguinte
Com a expressão mais impassível e displicente
Que conseguira formar.
Era chegada
A hora de fingir.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
GAYA
Em meio ao ardente flerte e tostados pelo voraz sol do balneário sentiram a areia abrir-se sob seus corpos nus e tragados foram por Gaya. Durante a terrível e assustadora queda uniram-se como puderam. Mãos e pernas procuravam-se no afã de segurança. Totalmente tomados pelo desespero caiam cada vez mais rápido e, em questão de segundos, amparados foram pelo grande e suntuoso leito que os acolheu em pleno ar, aterrissando calmamente no estranho do ambiente.
Olharam-se e olharam em volta. Espelhos por todos os lados fechavam o espaço arredondado em que tochas serviam como iluminação. O ar irrespirável abrilhantava o cenário com sua terrível sensação claustrofóbica. A brancura dos lençóis era um ponto de luz, considerando a cor vermelha escura que imperava. De cada espelho surgiu um rosto com uma expressão. Apavorados os amantes tentavam se cobrir mutuamente. O que queriam? Quem seriam? Sem respostas imediatas, esperavam mudos.
O ar carregado os deixava zonzos e amolecidos. Aos poucos iam intuindo o que deveriam fazer. O contato dos corpos fez surgir a excitação carregada pelo medo. Desnudos e quentes voltaram a se descobrir avidamente, sem se importar com o resto. Algo lhes dizia ser esta a regra incomunicável até então. Em colados e besuntados beijos uniram-se diante de todos. As mãos dela deslizavam incessantemente pelo corpo dele, procurando-lhe explorar todos os redutos, enquanto ele afagava-lhe os cabelos, descendo pelas costas. O frenesi reinante era característica daqueles que muito se desejam. Embevecidos um pelo outro, já não se intimidavam mais com os olhares do entorno que, curiosamente, seguiam aumentando.
Ele deitou-se impassível e ela colocou-se de joelhos entre suas pernas levemente abertas a fim de melhor explorar-lhe o corpo delicadamente com a língua e com as mãos. Iniciou as carícias pelo rosto, pescoço, mordiscando-lhe a nuca e deixando seus seios na altura da boca do amado que os sorvia delicadamente. Descendo, deliciou-se no forte peito, brincando-lhe com os pelos e arrepios, enquanto ele emaranhava seus dedos pelos longos cabelos que ela lhe oferecia. Continuando sua trilha, desceu-lhe entre beijos e lambidas pelo ventre, sorvendo-lhe longamente o umbigo causando-lhe a a reação de puxar-lhe os cabelos, que trazia nas mãos como rédeas, a ponto de direcionar o melhor gozo. Deliciava-se em dar-lhe prazer, tremia por isso. Queria tê-lo como parte dela, ansiava em ser dele. Nada mais importava. Quanto aos olhares? Que olhassem!
Ergueu-se e, em movimentos giratórios compassados em cima do parceiro deitado, fez-se dele gozando a cada centímetro de avanço. Comandou o ritmo, acelerando e reduzindo, conforme a necessidade pedia. Fremia com o prazer que desfrutava. Exigiu também que suas mãos lhe agarrassem forte, muito forte. Queria sentir-lhe os dedos marcando sua pele. Queria gozar comandando a situação queria o prazer que tudo aquilo lhe causava, queria dar-lhe igual gozo, queria gritar e gritou. Gritaram. Gritaram muito e sorriram, sem se importar com o resto.
Exaustos e satisfeitos perceberam o incrível número de rostos estavam a sua volta, sempre dentro dos espelhos, seguiam mudos e impassíveis procurando captar toda a magia vital que havia circulado naquele momento, única energia capaz de ser utilizada para fugirem das profundezas que se encontravam, Conseguiram. Assim, nada mais lhes importava. Eles já não eram mais necessários. Com a mesma força que foram tragados foram impulsionados novamente à superfície, cuspidos por Gaya para o mundo exterior.
Acordaram na praia com frio e confusos. Já era noite. Vestiram-se e foram embora de mãos dadas sem qualquer palavra. Afinal, se alguém lhe relatasse essa história eles jamais a acreditariam como possível...
VOLTO SEGUNDA-FEIRA
UM BEIJO
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
REMENDOS
Olho em silêncio pelo vidro.
Minha respiração tenta disfarçar
Embaçando a imagem que existe do outro lado
No afã de proteger-me contra o inevitável.
Insisto limpando a superfície com a manga da blusa.
Quero ver, preciso, só isso.
Tenho que ter certeza que não retornará mais.
Convenço-me do inevitável quando vislumbro,
Ao longe, a silhueta afastando-se, determinada.
Foi-se para sempre concluo.
Corro e pego a caixa de costura.
Agulha, linha e dedal.
Preciso cerzir,
Com urgência,
O rasgo que me sobrou na alma
E seguir o meu caminho
Remendada, sim,
Mas acreditando
Que ainda há a possibilidade
De ser feliz..
Minha respiração tenta disfarçar
Embaçando a imagem que existe do outro lado
No afã de proteger-me contra o inevitável.
Insisto limpando a superfície com a manga da blusa.
Quero ver, preciso, só isso.
Tenho que ter certeza que não retornará mais.
Convenço-me do inevitável quando vislumbro,
Ao longe, a silhueta afastando-se, determinada.
Foi-se para sempre concluo.
Corro e pego a caixa de costura.
Agulha, linha e dedal.
Preciso cerzir,
Com urgência,
O rasgo que me sobrou na alma
E seguir o meu caminho
Remendada, sim,
Mas acreditando
Que ainda há a possibilidade
De ser feliz..
terça-feira, 13 de setembro de 2011
FILME
Não posso me distrair nunca!
Assim já está demais!
Quando menos espero
Entras sem a menor cerimônia
E te instalas na sala dos meus olhos.
Deitas-te na rede das minhas íris,
Com a cabeça,
Confortavelmente acomodada,
No travesseiro negro das minhas pupilas e
Usas, sem te importares com nada,
A minha retina como tela
Para projetares
Aquele antigo e amarelado filme
Em que éramos
Felizes para sempre.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
VENCIDO
Pensa que disfarça
Crê que não percebo
Finjo que não vejo
Acredito que iludo
E nesse jogo de avanços e recuos
Seguimos no tabuleiro
Pulando de casa em casa
Querendo ser vencido
A todo custo.
A todo custo.
sábado, 10 de setembro de 2011
MISANCENE
De flores e de dança fez-se o sorriso
Adentrou todo arrumado e convicto de que iria encantar.
O sonho entrou correndo para não perder a sessão
Detestava que a realidade o ganhasse
Era muito competitivo.
A realidade amarra ainda mais a carranca
Quando percebe que o sonho já chegou e está na primeira fila, debochado.
Com os olhos inchados, o choro se fez presente
Repleto de pessimismo e mágoa não suportava os finais felizes.
Escrachada como sempre, a gargalhada ironizava a tudo e a todos
Não levava nada a sério e tomou assento no fundo do teatro.
Começando a misancene e todos no mais profundo silêncio contido.
Ergue-se o pano.
Ergue-se o pano.
Surge, no palco, a sedução.
Vestida de vermelho com uma flor nos cabelos
Dá início ao espetáculo brindando a todos com
O mais perfeito streap-tease que já realizara.
Ao retirar a última peça com seu atrevido recato
Olhou para a plateia e constatou que
O sorriso cessou.
O sonho acordou.
A realidade findou.
O choro secou
A gargalhada calou.
Retirou-se com elegância de cena,
Silenciosamente.
Destestava importunar o próximo número.
O prazer, que já estava a postos para o seu ato,
Entrou flutuando entre os presentes
Incendiando e enlouquecendo
As hipnotizadas imaginações.
Depois de tanta expectativa,
Rufaram os tambores,
O grand finale da função se aproximava.
Com um "ah" coletivo e uníssono
Todos foram agradavelmente surpreendidos
Pelo surgimento, no meio do palco,
Do inesperado, mas não tão estreiante
Gozo final.
Caem as cortinas
Ao som dos suspiros e gemidos
Despudorados.
A sensação de relaxamento tomou conta do ambiente.
Retirou-se com elegância de cena,
Silenciosamente.
Destestava importunar o próximo número.
O prazer, que já estava a postos para o seu ato,
Entrou flutuando entre os presentes
Incendiando e enlouquecendo
As hipnotizadas imaginações.
Depois de tanta expectativa,
Rufaram os tambores,
O grand finale da função se aproximava.
Com um "ah" coletivo e uníssono
Todos foram agradavelmente surpreendidos
Pelo surgimento, no meio do palco,
Do inesperado, mas não tão estreiante
Gozo final.
Caem as cortinas
Ao som dos suspiros e gemidos
Despudorados.
A sensação de relaxamento tomou conta do ambiente.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
TANGO
Os enfáticos acordes do tango rasgam o ambiente. Uma clareira abre-se no centro do salão e os holofotes caem sobre ela. Seu vestido negro cintila e a flor vermelha nos cabelos aguça a curiosidade. A fenda da justa saia deixa suas pernas a mostra. Uma liga de cetim preto no alto da coxa pode-se perceber sobre a escura meia fina de transparências rendadas. Saltos altíssimos completam a estampa imóvel. O violoncelo chora respondido pelo bandolion e violino. O piano apresenta-se compassado.Todos exigem que ele se aproxime. Olhos atentos para o outro canto da sala. Impecável em seu terno escuro, calça de risca de giz, sapatos bicolores e cabelos penteados para trás vem firme marcando cada passo. Com os olhos fixos colam-se os corpos. Entre os giros do tango dançam pelas mesas, paredes e teto. O magnetismo dos corpos não permite um segundo de afastamento fazendo com que todas idas tenham voltas abruptas e dramáticas. Entregam-se um ao outro. Pertencem um ao outro. O suor de ambos se mistura exalando o doce aroma da paixão arrebatadora. Querem-se juntos e dançando. Pernas se entrelaçam no bailado e os ganchos são executados com perfeição. Entre voos e rostos colados desenvolvem os movimentos rumo à sacada. Energizam-se junto ao luar e ao vento fresco da noite sem perder o ritmo e o amor coreográfico. Sentem que os olhos dos demais os queimam. Inveja, frustração, sentimentos mesquinhos daqueles que não são capazes. Não ligam. Seduzidos e hipnotizados dançam sobre a murada. Terminam o número unidos em um longo beijo, sorvido entre línguas e dentes, com sabor do fogo que o momento exigia. Por um segundo deram-se conta que se mereciam há muito. Pena que só puderam se encontrar na cena final.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
RESIGNAÇÃO
Vivia com muita intensidade.
Perdia sangue regularmente.
Sua vivacidade ia diminuindo
Na mesma proporção das suas hemácias
Recusava-se a entender
O porquê disso
Logo, não dava a menor importância,
Seguindo a normalidade.
O ritmo decrescia a olhos vistos
Ela secava, mas seguia feliz.
Já tinha se dado conta,
Há algum tempo,
Que nada poderia fazer para mudar
Assim, decidiu definitivamente
Que brigaria apenas
Pelo direito de sorrir
Até o fim.
E sorriu.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
SAX
Foco de luz branca concentrada no meio da cortina.
Da pequena abertura surge ela
Capa negra até os pés
Cabelos cobertos por um capuz
Soa o saxofone um blues sentido
Com presença de cena,
O corpo faz-se sinuoso
Sob o escuro manto.
Aos poucos vislumbram-se os braços e mãos
A desatar a fita que prende no pescoço.
Cai a capa pesadamente ao chão.
Cabelos esvoaçantes
Vestido longo e rubro.
Bordados no mesmo tom
Conferem brilho à peça.
Luvas de cano alto, pretas
Destacam os movimentos lânguidos e ritmados
Vira-se de lado e começa a tirar as luvas
Joga primeira para o alto e a segunda para a plateia
Que atônita permanece em silêncio.
De costas abre a saia arremeçando-a para os bastidores.
Pernas longas, corpo curvilínio
Parece deitar para repousar
No som do instrumento que segue sua tarefa.
Em um jogo de dança despe a blusa
Ficando com o espartilho vermelho,
Meias de fina seda 7/8 e saltos muito altos
Desloca-se no espaço cênico
Ora de costas, ora de frente
Calmamente descalça os sapatos e desce as meias
Costuradas atrás das pernas e presas no espartilho.
Com toda a sensualidade pretendida
Abre um a um os botões do espartilho
Escondendo-se atrás do biombo
De voal transparente iluminado por trás
Surgido, ninguém sabe de onde, no canto do palco.
Lança as últimas peças para fora
E nua dança em seu abrigo coberto
Para encantar a todos com sua silhueta esguia.
Apagam-se as luzes
O sax para de soar
E nenhum outro movimento se pode sentir.
Quando voltam a acender as luzes
Ningém mais há no palco.
Soam o terceiro e derradeiro sinal,
O espetáculo está para começar.
Abrem-se as cortinas
No cenário pesado
A peça tem início
Como de costume.
A dúvida fica em relação ao inusitado prólogo
Que todos se lembram, mas ninguém ousa perguntar
Uma vez que nunca constou no programa,
Tampouco no script
Do teto, ela ainda sorri para todos
E desnuda embarca na primeira brisa
Rumo ao horizonte claro
De onde já se podiam ouvir
Os primeiros acordes
Do saxofone.
terça-feira, 6 de setembro de 2011
PRIMAVERA
Flutuando na tona d'água
Ela estava coberta de pétalas.
Olhos parados, lábios selados
Braços abertos, pernas unidas.
O vestido azul, outrora esvoaçante,
Confundia-se com o fundo da piscina.
Dissolvia pouco a pouco
Exalando o doce perfume.
Até o final da tarde a metamorfose deve estar completa,
Pensou Mãe Flora,
Impaciente para que tudo acabasse
Antes do novo raiar do sol.
Afinal,
Precisava dela para comandar o florescer
De uma infinidade de jardins
Já que a Primavera não tardaria a chegar.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
JOGADORA
Dançava e vivia a magia do movimento.
Sentia que a cada passo seu corpo transmutava-se em vários outros.
Formas e cores variadas projetavam a melodia da música
Ora doce, ora melancólica
Sombras ilógicas procuravam o alinhamento ideal,
Perdendo o tino cada vez que a mutação ocorria.
Cobria-se de véus para encantar
E descobria-se para enlouquecer.
Gostava do calor que lhe inundava o corpo
Deleitava-se com o fogo que lhe impulsionava a mente
Dando-se prazer na medida que o ofertava.
Era livre, era sua, era de ninguém,
Simplesmente era jogadora
E com as cartas na mesa,
Esperava o desafio
Haveria?
domingo, 4 de setembro de 2011
RECOMEÇOS
Ao som da harpa e do violoncelo ela o aguardava.
Cabelos voando sobre seu claro rosto,
Em decorrência dos fortes ventos da noite,
Impediam-lhe a visão do horizonte.
Esperava no barco que os levaria dali para sempre.
Em êxtase ouviu o tropel do branco cavalo.
A simples aproximação dele levava-a levitar.
Tinha que respirar fundo para que não se permitisse partir sozinha.
Com o rubro sorriso o recebeu finalmente
Quando a sua frente ele se colocou.
De mãos unidas sentiram-se firmes.
Já podiam ir.
A nova vida já os chamava.
Aos beijos deitaram-se no fundo da embarcação.
A negra figura sem rosto,
No comando da viagem,
Deu o primeiro impulso rumo ao fim adequado.
Foram-se tranquilos aos novos campos de vida
Enfrentando o final com a dignidade dos que entendem
O encerramento de um espetáculo
Como o início do próximo.
Cabelos voando sobre seu claro rosto,
Em decorrência dos fortes ventos da noite,
Impediam-lhe a visão do horizonte.
Esperava no barco que os levaria dali para sempre.
Em êxtase ouviu o tropel do branco cavalo.
A simples aproximação dele levava-a levitar.
Tinha que respirar fundo para que não se permitisse partir sozinha.
Com o rubro sorriso o recebeu finalmente
Quando a sua frente ele se colocou.
De mãos unidas sentiram-se firmes.
Já podiam ir.
A nova vida já os chamava.
Aos beijos deitaram-se no fundo da embarcação.
A negra figura sem rosto,
No comando da viagem,
Deu o primeiro impulso rumo ao fim adequado.
Foram-se tranquilos aos novos campos de vida
Enfrentando o final com a dignidade dos que entendem
O encerramento de um espetáculo
Como o início do próximo.
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