sexta-feira, 18 de novembro de 2011

MIRAGENS

Queria um vestido de nuvens
Passaria por ti,
Em uma tarde de tempestade,
Sem ser notada.
Queria um perfume da grama úmida
Não me perceberias,
Pois teu olfato não me distinguiria
Do aroma que exala do jardim 
Antes da chuva.
Queria uma máscara de gesso
Com um lindo sorriso pintado
Misturada entre os diversos rostos da multidão
Não me notarias tampouco,
Jamais poderias crer que eu havia conseguido sorrir novamente.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

VIRADA

No fundo do poço
Afundei no lodo pink
Com reflexos de purpurina.
Enchi os pulmões 
Com o ar fétido-mentolado do ambiente.
Iniciei a escalada rumo à abertura
Apoiando-me nas viscosas paredes
Recobertas de musgos dourados e apodrecidos.
Atingi o topo
Em noite de tempestade
Movimentada por rajadas de incompreensão.
Gargalhei perante os olhos dos derrotados
Que não compreendiam
Como alguém poderia sair de uma depressão
Em tão alto estilo.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

ACALANTO

Deitei ao lado e afaguei-lhe os cabelos
Cantei as mais belas canções de ninar
Dormi embalada por seu sorriso tranquilo
Próprio daqueles
Que saem para encantar
Os sonhos do mundo.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

PISTAS

Olha-me.
Atravessa todas minhas carapaças.
Por que o espanto?
Presta atenção, é possível.
Segue o caminho das fitas iluminadas.
Escondi-as, de propósito
Somente para te indicar o trajeto
Quando sentisses que era o teu momento
De me redescobrir.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

AUTORRETRATO

Peguei papel e lápis para fazer meu autorretrato.
Rabisquei, apaguei.
Tornei a tentar e novamente desisti.
Fui até o espelho conferir os traços.
Encontrei tantos que me atrapalhei.
Não sabia por onde começar.
Todos gritavam que deveriam vir primeiro.
Os olhos piscavam freneticamente na ânsia de seduzir.
A boca falava, murmurava, jogava beijos esperando ganhar no grito.
O nariz alongava-se, afinava-se e ameaçava trancar a respiração se não tivesse preferência.
Os cabelos voavam em rebeldia achando-se ser mais fundamental a moldura do que o conteúdo.
"- Chega!" - vociferei.
Afinal, como artista e modelo, deveria dar as ordens.
Calaram-se espantados com minha audácia.
Amassei o papel e guardei o lápis e a borracha.
Não quero mais.
Afinal, de que me serviria eu mesma
Congelada em um papel
No fundo de uma gaveta?

domingo, 13 de novembro de 2011

GRITO

Que falta me fazes!
Levei muito tempo para entender isso.
Mas agora verbalizo, grito:
Que falta me fazes!
Feita a confissão,
Posso voar novamente.
Quem sabe não encontro
Um outro eu capaz de
Reescrever essa frase?

sábado, 12 de novembro de 2011

PARASITA

Apagou a luz do ambiente.
Girou a chave 
Até a volta completa se fazer.
Ligou a ducha.
Sob a cálida água,
Tremeu ao ver a ansiedade
Escorrer por seu corpo, 
Aos gritos de protesto,
Próprio dos parasitas que são arrancados do hospedeiro.
Sendo rapidamente engolida pelo escuro  ralo.
Empurrou com o pé, ainda atônita,
Os últimos vestígios 
Daquilo que, um dia,
Pensou que nunca mais iria se libertar.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

PACIÊNCIA

Vem me encantar
Sou suscetível aos galanteios
Derreto-me com os olhares
Sucumbo diante dos toques
Enlouqueço com sussurros
Agora chega!
Não te darei mais pistas!
Vem me encantar,
Logo.
Nunca fui paciente
Nem tenho a intenção
De  assim me tornar
Um dia.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

FITAS

Frente a frente
Imagens reflexas
Olhos fixos que bebiam os últimos instantes
Um no outro.
Uniram as mãos espalmadas.
E, no susto, iniciaram a dança
Dos corpos colados.
Buscavam a fita e a encontraram
Muito bem escondida
No limiar dos seus infinitos.
Apoderaram-se, cada qual da sua extremidade
E, sem sorrisos,
Iniciaram o percurso rumo ao oposto.
O laço desfez-se sem qualquer encanto.
Livres, voaram acompanhando as piruetas
Da fumaça perfumada do incenso.
De saudade ficou apenas
A imagem do laço desfeito em pontas
Que insistia em acenar o mais patético
Adeus.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

PRENÚNCIO

Ohou para a porta e viu o elegante homem que adentrava no salão. Impecável, com tulipas em forma de bouquet. Trocaram olhares, inicialmente de soslaio, após de forma mais aguda. Caçaram-se mutuamente pelo ambiente. O perfume das flores a entontecia fazendo com que levitasse da cadeira onde respeitosamente se encontrava. Uma mesa de jogo. Cartas rolando. Bebidas e cigarros. Ao fundo música de cítaras que apenas os dois ouviam e sorriam. O magnetismo dos olhos fez com que os corpos se procurassem mais de perto. Deslizaram pelo espaço lotado, sempre fixos um no outro. Passaram lado a lado, como se a dança do minueto se tratasse. Ela sentiu todo o calor que dele emanava quando ele, sem que ninguém percebesse, lançou uma tulipa no seu decote. Com a mão rápida, ela caçou o mimo e o guardou junto ao peito, sob o seio. Afastaram-se reproduzindo o leve bailado daqueles que se enamoram. No ar, no entanto, restava o ardor e desejo já materializado em véus que os uniram pela cintura, sem que os outros vissem. Eles sabiam que estavam presos, eles sabiam que aquela seria uma bela história, eles sabiam que tudo estava apenas começando.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

MOMENTO

Depois de tanta insistência, um dia acordou e percebeu tudo, com muita clareza: a magia é para ser feita uma única vez. O encantamento pleno que este momento oferece não tem par, por isso mesmo é que a cortina deve cair ao final do ato e todos irem embora saboreando cada lembrança fugaz como se fossem telas raras pintadas por algum gênio já falecido há muito.

domingo, 6 de novembro de 2011

AUTOCONFIANÇA

Parou e refletiu:
Existe alguém melhor do que eu?
Foi soterrada pelo turbilhão de lembranças,
Mas nenhuma grande o suficiente
Para responder satisfatoriamente a sua dúvida.
Sorriu, aprumou-se
E, confiante,
Em cima do seu salto mais alto
Entrou com todos os requebros,
A que tinha direito,
No lotado salão.

sábado, 5 de novembro de 2011

SOL

Estava quieta no meu canto.
Chorava minhas angústias e enganos.
Disse que me ia para sempre.
Saí em busca do sol,
Aquele que eu havia abandonado há algum tempo.
Andei por várias trilhas,
Apontaram-me várias direções.
Tropecei, cai e fui em frente,
Não podia estar tão distante assim.
Foi com muita dificuldade que acertei o caminho
Já podia sentir-lhe o calor, mas e o brilho?
Onde havia se ocultado o brilho?
Cheguei mais perto, mais perto e mais perto.
O ar extremamente quente denunciava o final da busca,
Mas a luz, onde estava a luz?
Parei confusa e cansada.
Extenuada, senti o fogo envolver-me com fúria.
Meu corpo, meus olhos, meus cabelos ardiam
Sem que eu pudesse entender de que forma.
Em êxtase, virei-me e pude ver-te
Claro, iluminado, brilhante na minha frente,
Com os braços abertos repletos de sol.
Entreguei-me a ti sem lutas.
Afinal, alguém que havia guardado
Tão poderoso astro
Só para, quando eu o procurasse novamente, me entregar
Merecia tudo o que eu possuía,
Tudo.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

VONTADE

Hoje, gostaria de te servir.
Avental, bandeja
E todas as honrarias.
Uma almofada para colocares os pés.
Uma massagem para relaxares.
E uma linda música para encantar
Teus aguçados ouvidos.
No ar, incensos e aromas florais.
Hoje, quero-te entregue e imóvel,
Apenas aproveitando minhas 
Mais rebuscadas carícias.
Hoje, e somente hoje,
Quero ser tua gueixa.
Aproveita.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

DESISTÊNCIA

"Acho estranho"
Após ouvir essas palavras
Sepultei para sempre
A esperança de voltar 
Ao ponto onde nos tocamos e sentimos
Pela primeira, única e última vez.
Tornamo-nos estranhos
Demais para tanto.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

VISÕES

É definitivo agora, sei.
Partiste e não voltarás mais.

Sofro por que não me dissestes isso. Sofro por que esperaste que eu compreendesse a tua indiferença. Sofro por que acabou sem iniciar. Sofro por que nunca me desses a chance de te mostrar o quanto tudo poderia ser belo. Sofro por que tem que ser assim.

Sorrio por conseguir sair da bolha opaca em que fiquei te esperando por esse tempo todo. Sorrio em vê-la explodir e derreter-se em lodo negro escoando pelos vãos do assoalho. Sorrio ao constatar que o sol ainda está lá da maneira que eu deixei há tanto tempo.

É definitivo agora, sei.
Parti e não voltarei mais.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

CÁLICE

Destilo todo o veneno no cálice.
Verto o melhor vinho da adega sobre ele.
Lentamente misturo muito bem.
O aroma que se ergue é doce.
A cor rubra do líquido é hipnótica.
O sabor é irrecusável.
Bebo gole a gole
Desejando que o final seja rápido.
Detestaria que chegaste
Antes de eu ir definitivamente.
Como poderia carregar a visão
Dos teus olhos esbugalhados e culpados
Por toda a eternidade?

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

CIRCO

Vai começar a função!
Venham! Aproximem-se!
Querem pipoca, algodão doce?
Entrem por gentileza!
Respeitável público! Vai se iniciar o maior espetáculo da Terra!
Todos no picadeiro e fechem os olhos!
Sintam-se invadidos pela magia do circo.
Pisando na serragem e sob o abrigo da lona.
As luzes começam a colorir embaladas pela alegre música.
Comecemos pela corda bamba, peguem a sombrinha!
Cuidado! Isso, equilibrem-se e venham, saltem na cama elástica
Voando na direção dos trapézios.
Não tenham medo, estou aqui.
Peguem as barras e voem, voem alto, assim.
Piruetas são imprescidíveis. Joguem-se sem temor.
Isso, assim, bom.
Com um mortal caiam devagar sob o comando do mágico
Que treina o número da levitação.
Planando achem o chão dentro do carro dos palhaços.
Riam de si próprios, sorriam para todos, façam rir
Sejam felizes, só isso.
No jogo dos malabares façam as acrobacias propostas
E nos monociclos,
Pedalem engolindo e cuspindo o fogo das tochas
Em forma de mil labaredas.
Le grand finale se aproxima.
Venham, todos juntos, gritem alto, gritem forte, gritem juntos
Liberem todas energias negativas, ruins, desprazeres, frustrações.
Exorcizem os fantasmas, assim, forte, pronto.
Agora, terminou.
Podem abrir os olhos e ao trabalho,
Pois hoje é segunda-feira!
Bom regresso ao mundo lá fora.
O cotidiano, com certeza, ficará mais leve e feliz.
Voltem sempre que quiserem.
Foi um prazer inenarrável ter estado com vocês!

domingo, 30 de outubro de 2011

PAPEL

Quero
A beleza dos momentos de papel
Com seus rabiscos feitos a lápis colorido.
Suas múltiplas possibilidades de dobraduras e recortes.
Seus voos em céus azuis ou cinzentos ao sabor da brisa.
Quero.

sábado, 29 de outubro de 2011

NEON

Fez-se a magia.
As emoções dançaram ao nosso redor, na nossa frente, sobre e sob nossos corpos..
Os versos ora debocharam ora comoveram-se com o nosso olhar atônito.
Falamos, ouvimos, mas sobretudo, queremos.
O mundo dos sonhos invadiu o real e fez com que acordássemos no susto.
O desejo cresceu e tornou-se uma ideia subliminar feita de neon.
A fluorescência ofuscou-nos
O calor dos nossos corpos concretizou-se e estabeleceu-se como um monolito em cima da mesa.
A força atrativa é inegável.
Queremos um ao outro, isso é certo,
Mas o que será a partir de agora?

(Reedição)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

TROFÉU

Em meio a muita festa e vinho
Ofereceram sua cabeça, sorrindo,
Na decorada bandeja.
O estranho troféu passou de mão em mão
Ao som das gargalhadas de vitória.
Mal perceberam
Que o corpo acéfalo,
Atirado no canto,
Levitava envolto pela mágica bruma,
Translúcida e perfumada,
Daqueles que se sentem aliviados.
Finalmente, poderia seguir seu caminho
Totalmente liberta e esquecida
Do incompreensível peso e desconforto
Que um dia aquela grotesca máscara de ferro,
Mal encaixada,
Havia lhe causado.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

MALÍCIAS

Gosto da malícia das palavras,
Das 569 intenções,
Estrategicamente camufladas,
Nos arabescos da requintada caligrafia.
Gosto da malícia dos olhares vagos.
Aqueles que, em uma primeira análise,
São absolutamente casuais
E até um pouco resistentes,
Mas que vão queimando lentamente
Todas as superficies por onde passeiam
Imprimindo, a fogo, profundos sulcos
Molhados de prazer.
Gosto da malícia dos sorrisos
Aqueles meio entreabertos
Que deixam a boca úmida
E dão frio no estômago
Tirando totalmente o tino e o fôlego
Abrindo em explosão
As portas
Para os mais deliciosos devaneios.
Pronto! Confissão feita!
Será que tenho salvação?

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

PENA

Reconhecia-se no lume do candeeiro.
A labareda da fogueira exibia, sem pudor,
Os contornos que lhe havia furtado.
Causava sensações incandescentes
Naqueles que ousavam se aproximar.
Marcava a ferro os que a tocavam 
Ou, simplesmente, a desejavam.
Causava a certeza
De ter encontrado a ansiada felicidade e
Ser detentora do pleno poder 
Tão buscado por muitos.
Como poderiam ser todos cegos ao mesmo tempo?
Será que ninguém nunca iria perceber 
A imensa jaula dourada em que habitava?
Alguém, um dia, se daria conta de abrir o escondido cadeado?
Será que a solidão, com seu negro capuz,
 não seria descoberta em toda sua maldade em algum momento?
Seguia sorrindo mecanicamente no salão lotado
Retribuindo, com desprezo, os lânguidos olhares.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

BUSCA

Após alguns ingredientes, a mágica se fez em um estrondo.
Fumaça lilás com aroma de frutas tomou conta do ar.
Vestida de faíscas intermitentes, fez-se bela.
Cabelos em desalinho, receberam como adorno borboletas coloridas.
Sapatos de celofane brincavam com os raios de sol.
Desfez-se das dúvidas e preocupações
E saiu sorrindo na busca do seu ideal.
Mal o reconheceu, quando virou a esquina dos cata-ventos.
Teve que ser chamada por duas vezes
Até localizá-lo no canto amarrotado.
Tentou recuperá-lo, mas entendeu, por fim, que não seria possível.
Deu-lhe um beijo de despedida 
Oferecendo-lhe como leito confortável, 
Para seus derradeiros instantes,
O lenço de seda azul que trazia no pescoço.
Foi-se tranquila a procura de novas estradas.
Divertiu-se quando, a cada passo,
Era alvo da sedução de novos ideais
Que brigavam entre eles
Na expectativa de descobrirem qual deles
Se adequaria melhor
Às suas expectativas.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

LENTE

Estendeste-me as mãos e
Acedi ao teu convite sem dúvidas.
Esvaziei-me por completo
Dos conceitos, impressões e imagens
Que até então carregava,
Não poderia conviver com o risco
De comprometer a novel experiência.
Entrei em teu ambiente
Sem medo.
Acomodei-me confortavelmente
Atrás de tuas janelas escuras
E, observando a poderosa lente que havia na frente delas,
Esperei o que me tinhas preparado.
De imagens te fizeste
Mutantes em cores e elementos
Ao som do violoncelo e dos violinos.
Foste felino e bonde, rua e transeunte, mar e sol.
Vi metrôs passarem por igrejas e trilhos que levavam a grafites multicoloridos.
A vida se fez em toda tua diversidade de sabores e enfoques
Penetrasses nas almas que aguardavam ou caminhavam sem rumo
Mães, filhos e ladeiras, incontáveis ladeiras.
As luzes da cidade, que derretiam para dentro das águas, tinham o condão de içá-la aos ares.
Palavras de protesto e sorrisos de compreensão formam paradigmas de conduta.
Flores e helicópteros em contraste com o céu azul
Preenchem o ambiente natural tão inusitado ao cotidiano urbano.
Chegado ao final da agitada viagem desembarquei dos teus olhos
Pulando através das tuas pupilas.
Foi com susto que me percebi,
Imóvel,
Diante da tua implacável lente.
Sorri com o coração quando
Em um fugaz clic
Capturaste-me para sempre
Em mais uma de tuas fotografias.



Uma pequena homenagem a um grande artista Sérgio Pontes do blog "A Teoria do Kaos".



Beijinhos a todos!



domingo, 23 de outubro de 2011

BAILARINA

Linda redoma bailarina! Como ficas bela com esta luz... Teus cabelos ficam mais sedosos, tua pele parece uma porcelana, tuas roupas brilham com a purpurina que tinge o ambiente. Mas o que há de errado bailarina? A música da caixinha não te agrada? Ela foi feita para dançares, encomendada para o teu deleite. Não sabes, bailarina, o quanto me custa todo este teu conforto. Vivo pagando contas que não acabam sempre para te ver cada vez mais feliz. Por que choras, bailarina? O que te faz falta, meu bem? Por que me olhas assim, bailarina? Não te compreendo... Tens tudo que queres para ser feliz e por que não és? Não bailarina, não sejas ingrata minha querida, não faças isso bailarina! Coloca o braço no lugar, como vais mostrar  gestos, tão graciosos, sem braços? Alto lá, bailarina, não tires tuas pernas, como irás saltar de novo? Pára, bailarina como vais rasgar teu peito e liberar teu coração que levou tanto tempo e me deu tanto trabalho para  aprisionar aí?!

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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

JOÃO E MARIA

João e Maria envoltos na bruma, vestidos de nuvens, ao som de “Hard Day's Night” viram-se pela primeira vez. O burburinho do local pairava acima das cabeças e os olhos trocavam palavras mudas, repletas de significados. Ficaram assim por algum tempo, até materializarem-se lado a lado. Como íntimos desconhecidos de longa data, teceram comentários insossos e vazios, meras escadas para o futuro imediato. Olharam a porta e, ao mesmo tempo, encaminharam-se a ela . Saíram e voaram sobre a cidade no tapete mágico que já os aguardava. Calados, envolveram-se e rolaram no prazer do desconhecimento. Despediram-se, com um “até nunca mais”, um sorriso e um beijo. Partiram para todo sempre em direções opostas. Desapareceram na linha infinita dos olhares vagos.

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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

EXCESSO

Não suporto esperar o tempo necessário,
Sou urgente e dramática.
Arranco os ponteiros do relógio
Para não ser denunciada na minha pressa.
Rasgo papéis recém escritos
Pelo desaforo de terem sido ultrapassados
Pelo grão de areia que cai da ampulheta.
Quero agora, hoje e sempre.
Mais, cada vez mais rápido.
Até, um dia sufocar,
Abismada,
No meu próprio excesso.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

PASSOS

O som que se seguiu aos passos
Era a fiel execução da pauta
De um choro estridente,
Salpicado por soluços cinza.
Tremores no corpo e
Incompreensão das mãos
Davam amplitude à cena,
Elevando-a a um patamar
Além dos limites da tolerância alheia.
Torciam-se os narizes repugnados
Diante de tamanha agressão.
O desdém haveria de ocupar-se em limpar
O grotesco espetáculo logo, logo.
Os passos, apressados,
Já iam longe...

terça-feira, 18 de outubro de 2011

REFLETE

Tira-me as palavras
Apaga-me a razão
Aquieta-me junto a ti.
Em agradecimento,
Roubar-te-ei todo tino,
Tornando-te leve o suficiente
Para voares comigo
À face oculta da lua...
Entrega-te e confia,
Não irás te arrepender.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

CÔNCAVO

                  Entrou
                 Sem
                Pressa
               Nem
              Pudor           
            Despiu-se    
           Das         
         Roupas        
        E da       
      Alma     
     Mirou-se no    
   Espelho   
  Côncavo  
A sua
 Frente 
  Percebeu  
   Com um   
   Arrepio    
    Todo o     
     Prazer      
      Que se lhe       
       Oferecia        
        Naquela          
         Estranha           
          Imagem            
           Invertida             
            De si mesma
             Entregou-se
              Com vagar
               Ao mais
                Inusitado
                 69...

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domingo, 16 de outubro de 2011

OBSTINAÇÃO

Acordou e saiu à praia junto aos primeiros relâmpagos 
Da mórbida manhã de inverno.
Despiu-se e lançou-se no gélido mar revolto
Nadou como pode por entre as agressivas espumas brancas
E ao som monocórdio dos trovões.
Sentia o frio tomar conta dos seus movimentos, mas
Tinha um objetivo 
E isso lhe bastava.
Não via a hora de encantar-se com a flor que ele lhe havia plantado,
No imenso jardim, do outro lado da costa.
Continuou nadando, na esperança, de que,
De uma hora para outra,
Iria chegar.



sábado, 15 de outubro de 2011

ORDENS

Quero tuas mãos em mim.
Teus olhos em mim.
Tua boca na minha.
Teu corpo no meu.
Não vou aceitar acordos que não contemplem essas cláusulas pétreas.
Assim foge,
Mas foge bem rápido para que eu não consiga te alcançar,
Vou vestir tua alma...

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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

PROMESSA

Um dia ainda repito tudo
Com apenas uma cautela:
Ao final,
Vou te engolir por completo
Para ter a certeza que nunca mais
Terás essa ideia infundada de 
Fugir de mim. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

CORPO

Fecho os olhos e sou capaz de descrever todo esse mapa que chamas de corpo.
Conheço-te em meus desejos, em meus sonhos e na plenitude dos meus devaneios.
Conheço-te, apesar das barreiras físicas, pois não consegues barrar minha entrada pelas tuas pupilas.
Delirante incursão ao teu íntimo. Invasora, furtiva e, aparentemente, não aceita.
Sigo ponto a ponto, passo a passo pelos vãos da tua consciência.
Brinco pelas tuas complexidades.
Delicio-me com a tua convivência muda.
Quero explorar-te, um dia, não apenas para conferir o esboço que criei, mas para, principalmente, poder compartilhar contigo a pulsante energia dos dias de espera..

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