quinta-feira, 11 de agosto de 2011

BATALHA


No reino das bruxas e fadas surgiu um certo marquês. O alvoroço foi grande com o surgimento do forasteiro. De pronto, duas interessadas saltaram na disputa pela atenção do recém-chegado.
Uma com vestido azul e luminosa varinha de estrela na ponta de um giro levou-o a voar por entre as folhagens de seu bosque encantado. Mostrou-lhe realidades e sonhos. Mares e ares perfumados. Toques sutis e coloridos de palavras bem pensadas e ponderadas prendendo-o pelo impecável bom senso e espírito crítico. O marquês, que já havia sido pássaro um dia, de tudo gostou e regressou em plena empolgação daqueles que entendem amar.
Atordoado e ainda inebriado pelos encantos de tão bela companhia e passeio, foi brutalmente arrebatado pela outra.
Envolta em um manto escuro e gola erguida apoderou-se dele como que um furacão e levou-o a sentir o voo com o vento a lhe varar o corpo, dando piruetas com a vassoura que lhe causavam calafrios no estômago. Nada falou, quando na parte escura da lua, o amou sem pressa dilacerando sua carne e cravando suas unhas nas marcas dos ferimentos, para depois mergulhar no mar salgado e sentir as ondas a envolver-lhes os corpos que, unidos, brigavam contra a correnteza. Gargalhou quando o viu tentando decifrar o seu sorriso antecedente e obrigou-lhe a nadar com taças sem entornar o champagne para brindar com ela na praia onde jazia uma garrafa encantada, lar de tantos tempos que aprendera a gostar. Extenuado deixou-se cair em êxtase de prazer daqueles que sentem amar.
Reunidos todos na clareira sob a luz da lua e do sol, cada um no seu horizonte, foi iniciado o julgamento. A quem caberia o marquês? Na assembleia discutiu-se o tema e empate restou a resposta. Chamaram-no para que desse o derradeiro voto, o de minerva. Atônito, o homem que era três, discutia entre seus dramas e faces ocultas tentando ponderar a respeito do insólito. Como poderia escolher entre o sensato e o insensato sem alguma coisa não perder? Ambas foram chamadas ao centro do círculo sob o olhar atento de ambos os lados.
O pobre, acuado entre a razão e a emoção, acordou no susto em meio a delírios da febre alta, suando muito e tremendo, mas sobretudo, profundamente decepcionado de ter sido poupado da imposta obrigação...

15 comentários:

Carla Ceres disse...

Pobrezinho! Dá pra compreender a decepção. Mas que se divertiu pra valer, ah, se divertiu sim! :) Beijos!

Andressa disse...

Adorei! Sobretudo esta parte: O marquês, que já havia sido pássaro um dia, de tudo gostou e regressou em plena empolgação daqueles que entendem amar.

ϟ Cynthia Brito disse...

Pobre coitado!!!

Gisa, querida, se você ainda não tem o selo oficial do meu blog te convido a buscá-lo na página SELO OFICIAL.

Beijooooos.

Dois Rios disse...

Oi, Gisa!

Muito bom!

É o sonho sobrepondo-se à realidade.

O final foi surpreendente!

Beijo,

I.

Ricardo Calmon disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Julio Díaz-Escamilla disse...

Desconocía tus grandes dotes narrativos. Una prosa impecable que mete al lector en las peripecias de los personajes.
¡Felicitaciones!

Flor de Jasmim disse...

Gisa
Adorei!!! A deecpção foi ultrapassada pelo divertimento.
Beijinho

Dilmar Gomes disse...

Amiga Gisa , tu escreves com fluência e elegância.
Um grande abraço. Tenhas uma boa noite.

Mery disse...

Gostei muito do texto, é divertido e fascinante, porque consegue surpreender com uma dose de humor.
Vou seguir esse blog, sou a Mery, do Rio de Janeiro. Beijos.

Rogério Pereira disse...

O falso Marquês (pois era falso o seu gozo sádico) viu-se desnoteado, com bruxas por todo o lado... Tudo lhe aconteceu depois de ter pensado salvar a moça linda com pés carentes de desatar. Estão lembrandos? Levava-a nos seus braços voando direitos à estrela mais brilhante que tinham por diante. Foi aí, quando ela se esfumou... para depois aparecer gargalhando na sua vasoura voando. Perseguiu-a e caiu na armadilha. Depois, tudo aconteceu como em cima alguém escreveu. Excepto no acordar... acho que o falso marquês ainda anda a sonhar. Sonho entre o estranho e o bom...

Dja disse...

Ahhh tadinho, rssss

beijos lindona que eu adoroooo.

Richard Moisan disse...

Vrai, faux, rêve, réalité... Alice au pays des merveilles, retransposé. On se laisse envahir par cette histoire et on compatit aux angoisses de ce marquis qui pourrait nous ressembler...
Bonne journée, Gisa! C'est très beau, ce que tu écris.

ANTONIO CAMPILLO disse...

Un cuento de sueños es un verdadero cuento. Cuando la ficción y la realidad se cruzan sólo es posible soñar. Al despertar, la ficción se transforma en recuerdos que formarán parte de nuestra vida.

Gisa, te he encontrado en el blog de Miroslav. Me hago seguidor tuyo y si quieres hacerme una visita estaré encantado: DACTYLIOTHECA asociado a la dirección http://elbamboso.blogspot.com

Un saludo.

Miguel Iglesias disse...

Gracias por tus comentarios en uno de mis blog. Agradezco conocerte.

Mar Arável disse...

De facto

o centro do círculo