sábado, 23 de julho de 2011

FILHOS TEXTOS

São três horas da manhã de sábado. A sexta-feira foi pesada. Trabalho, estudo, curso, casa, filhos, marido, todos em eterna solicitação e você correndo para tentar conciliar vontades muitas vezes inconciliáveis. Para relaxar uma janta ótima, com boa companhia, conversas, risadas e algum vinho, pois o frio segue forte. A partir daí casa, cama e sono pesado com intenção de só ir embora com o sol das dez horas do dia seguinte. Olhos estalados a essa hora realmente não faziam parte do contexto.

Tudo começa assim. Desperta-se. Neste caso foi durante a noite, mas prestem atenção esse despertar não necessita ser durante o sono, não, desperta-se a qualquer hora do dia, este entendido como vinte e quatro horas, mil, quatrocentos e quarenta minutos, e dos segundos nem penso em fazer a conta para não assustar. Seguindo então, desperta-se e o movimento começa.

Inicia-se com uma ideia, que logo apresenta uma irmã, uma prima, uma tia, um tio-avô muito querido que não poderia faltar e quando menos se espera estão todos dando uma festa dentro da sua cabeça. As danças completam o frenesi, subindo pelos ares, ocupando o teto e lançando seus participantes empolgados contra as paredes, vulgarmente conhecidas por cérebro, seu cérebro! Noitada boa, todos inebriados querem sair para seguir aproveitando a vida e você ali tentando se concentrar no seu mesquinho cotidiano. Dormir agora? Como assim? Trabalhar, ler, fazer ginástica, atravessar uma rua? Que loucura! Vá corra pegue o papel e o lápis e possibilite que todas saiam para que se possa limpar a sala novamente até a próxima balbúrdia, quem sabe ainda se consegue ver aquele programa de TV nesse meio tempo?

Muito bem, da saída. Nem sempre é organizada, coerente. Eu até diria que, com raras exceções, essa passagem do seu interior volátil para o seu exterior concreto pretendendo a corporificação na palavra escrita lembra uma fuga por uma única e estreita porta de um ambiente lotado onde um engraçadinho qualquer tenha gritado “fogo!”. Tudo quer sair ao mesmo tempo e cabe a você quando elas vão se lançando ao ar e imprimindo suas personalidades no papel, riscar e descartar as mais desavisadas, as mais sem noção e as totalmente dispensáveis para a formação de algo que mais adiante será conhecido como texto ou lixo, conforme sua avaliação final, afinal ser dono serve de alguma coisa, não é mesmo?

O ato de escrever é voluntarioso. Ou você escreve ou você escreve, não há plano B. Uma vez o texto nascido, e com o mérito de não ter se tornado mais um bolinha com a tarefa de enfeitar o mundo reciclável, ele ganha a maioridade. Assim só lhe cabe abrir a porta, dar-lhe um beijo na testa desejando-lhe boa sorte no mundo lá fora. E lá se vai ele impresso ou virtual para desbravar as temidas fronteiras. O seu filho, o seu filhinho que ainda há pouco você tentava organizar ajudando-o a por-se de pé e dar os primeiros passos, já é maior de idade. Ele saiu de casa com uma missão: procurar novos amigos ou inimigos, despertar paixões ou iras, conceitos ou preconceitos. Você, respira aliviado pois sempre confia na educação que lhe dispensou, nos conselhos que se esmerou em dar e em toda estrutura que lhe possibilitou este voo autônomo, mas ele não é mais seu.

Agora sim, já que mais este se foi vou dormir, enquanto é tempo! Boa noite!

8 comentários:

Rogério Pereira disse...

Este texto
tem dois momentos
e diferentes andamentos:
O primeiro, sobre a sua sexta-feira parece a minha, toda, todinha. Apenas difere a casa pois é diferente a minha;
O segundo fala de filhos, como eu. Até me questionei se esse filho não seria meu...

Paulo Francisco disse...

Texto ótimo!
Li numa respirada.
Um beijo grande

Sandra Portugal disse...

Amanhã o ProjetandoPessoas comemora 11 meses de existência! E de amanhã até 24/08, quando o Blog completa 1 ano de vida, preparei uma sequência de surpresas para o Blog, homenageando grandes amigos de jornada! Espero que você aprecie a minha forma de celebrar essa conquista e me passe seu feedback sincero a medida que meu plano de 30 dias de festa avance! Serão dias diferentes de postagens até aqui! Mas tenha certeza de que está sendo preparado com muito carinho para todos! Aguardo seus comentários, críticas construtivas ou sugestões, ok?
Com muita admiração e respeito por cada um de voces! bjs e abraços Sandra
http://projetandopessoas.blogspot.com//
@ProjetaPessoas
Projetandopessoas@hotmail.com

Luana Ferraz disse...

É hora de descansar a mente, o corpo e o coração...

wcastanheira disse...

OI vizinha, é tão bom vir aqui, parece q estou pertinho do meu Povo Novo, sei q vc está aí a passos dele basta passar a ponte, leio vc e fico feliz, feliz, por ter uma bela escritora, poetiza e amiga virtual de tão pertinho da minha terrinha natal, pra vc minha linda bjos, bjos e bjosssssssssssssss

Eva Gonçalves disse...

Vim por sugestão do Rogério Pereira e gostei! É mesmo isso... ou se escreve ou se escrever ou sabemos que o momento passa...:) E despedimo-nos deles sabendo que não são mais nossos..tal e qual! Beijo

cidissima disse...

Um dia após o outro, dormimos para acordar. Acordamos para viver.
O ato de dormir e acordar são frutos de um reflexo condicionado. Se por um lado ele é o sono dos justos do outro é a capacidade da criação.
Nesses ciclos, temos a vida no plural entre a hibernação e a vida prática. Daí surge a luminosidade das palavras que, aos poucos, vão se encaixando e se tornando histórias.

Aparecida

OceanoAzul.Sonhos disse...

Palavras onde muitos de nós nos revemos.

Um abraço amiga
oa.s