domingo, 17 de junho de 2012

NONSENSE

O dia era pesado, sem sol. As nuvens chumbo carregadas de água tomavam conta do ambiente. Ela, abatida, aguardava a chuva. Sentia que a umidade entrava por todas suas superfícies e, paulatinamente, ia sentindo-se inflar. Já não conseguia mais respirar livremente. Seus pulmões, encharcados com o ar molhado, tinham dificuldade de realizar a separação necessária. Seu ser crescia enquanto os poros,milimetricamente distribuídos por toda área cutânea aumentavam a captação. O corpo intumescido já não tinha mais posição confortável. A cabeça doía cada vez que ousava mexê-la. O líquido que disputava espaço na caixa craniana fazia um barulho insuportável. "Corpo-esponja". Gargalhou com o pensamento grotesco. Morreu afogada no riso fluído.

14 comentários:

Cris Campos disse...

Ô amiga, vç consegue quase sempre me colocar diante do espelho no que escreves, teus textos são, muitas vezes, meu reflexo puro e simples! Amei! Gr. Bj.!

folha seca disse...

Lindo!
Um bom Domingo.
um beijo
Rodrigo

Anne Lieri disse...

Gisa,muito profundo seu texto e comovente final!Gosto de seus textos,posso levar alguns para o meu blog de autores: Recanto? Obrigada!Bjs e bom domingo!

Silenciosamente ouvindo... disse...

Pois é, um texto "que nos irá
fazer reflectir", sempre imagino
o que será uma morte por afogamento.
Um beijinho
Irene

Momo disse...

Olá querida amiga, belo texto como sempre, acho que sofro do mal de corpo-esponja, principalmente aos domingos, mas não necessariamente de agua rs.

Beijos

Laís Sandrigo disse...

Olá. Vi seu poema no blog do Ricardo, e vim aqui conferir o seu. Já me apaixonei pela forma como escreve. Intensidade pura!

Rogério Pereira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rogério Pereira disse...

CONTRA-SENSO
Tinha morrido afogada. Não havia a fazer nada. Mas deu-se o caso de na morgue não haver espaço. Nem na zona de frio, nem na espera. Pergunta o funcionário do necrotério ao médico. Onde pomos esta mulher?... O facto de ter pronunciado a palavra mulher e não a palavra cadáver (que era comum usar-se) levou o médico a atender e a procurar resposta: vamos tentar devolver-lhe vida. Vez que é normal a cor da sua tez?

Vinte minutos depois, da porta principal do necrotério, saia ela com uma energia nunca sentida. Atravessou a rua a medo, não fosse um automobilista distraído a reenviar para onde acabara de vir.

RICARDO BARBOSA disse...

Curti. :)

Fê-blue bird disse...

Amiga, mais um texto soberbo, Um nonsense que faz muito sentido.

beijinhos

silvioafonso disse...

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gisa,
Eu tenho um selo referente aos
1000 seguidores da minha pági-
na e como você faz parte desse
sucesso, ele é seu de direito e
de fato.

Um beijo do,

Palhaço Poeta






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Carla Ceres disse...

Céus! Ela estava com retenção de líquido, em plena TPM tempestuosa. :) Beijos, Gisa!

ANTONIO CAMPILLO disse...

De entre la enorme cantidad de interpretaciones de tu relato, Gisa, una de ellas puede ser el desmedido afán por conseguir cada vez más de lo que ya se posee.
Cierto que, si la sequía es grande, quien espera "el agua" la asimila con glotonería. Pero debe saber cuándo su avidez ha llegado al máximo.
Es un excelente relato con posibilidad de aplicar esta "fabula" a cualesquiera de los sucesos que acontecen en la vida cotidiana actual: dinero, poder, vida pagada,... Avaricia, esta es su justa definición.
Aplicado a seres irracionales, de entre los denominados racionales, este proceso, por el que se llega a reventar, es muy frecuente.

Un fuerte abrazo, querida Gisa.

ricardo alves disse...

que texto dualístico gisa!
doido demais...mexe mesmo com a racionalidade e nos transporta para a essência desconectada e irregular dos sentimentos...
fantástico!